segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Quando a despolitização é patológica

Por Fábio Amorim *

É recorrente, cíclico, com periodicidade de 4 em 4 anos, que os sentimentos de separatismo, de “sou elite intelectual”, de “a maior ditadura é aquela que aprisiona pela fome” e tantos outros, aflorem no Brasil... aliás, essas patologias, têm um período de início bem delimitado: remontam ao final de 2002, mas tem crescido em intensidade.
O fator de piora é a democracia, já que é só ela se fazer valer que os sintomas se manifestam. De ontem pra hoje eu tive que ler, ver e ouvir coisa do tipo: “É triste ver o Nordeste votar em Dilma por conta do Bolsa família” “Pernambuco me decepcionou, que vergonha, dar maioria pra essa corja de ladrões” “Dilma tirou mais votos no nordeste, porque aqui o povo se conforma com o recebimento de bolsa, não quer trabalhar” “Infelizmente tem muita gente alienada, mas não me arrependi da luta (‘classe médica aecista’ x dilma)” “Se os porcos pudessem votar, o homem com o balde de comida seria eleito sempre, não importa quantos porcos ele tenha abatido no recinto ao lado” “O PT dividiu o Brasil, o país está dividido sim, por cor, por conta bancária, por regionalismos, por ‘preferência sexual’” “Estou de luto pelo Brasil”
Sabe o que eu quero? DISTÂNCIA dessa gente de pensamento mesquinho. Da gente que acha mais cômodo e mais “politizado” disparar frases pré-prontas, pré-moldadas, carregadas de desinformação e de preconceito. De gente que viu nesse período eleitoral um momento oportuno pra mostrar a banda podre da face que, como não foi oportuno antes, não quisera mostrar. 
É a mesma gente que é contra o “coronelismo do PT”, embora não saiba nem o que é isso, nem tenha conhecido quem viveu nesse regime, mas que se “revoltou” porque o Estado de Pernambuco mostrou que não era curral eleitoral de Renata Campos e de seus Filhos. Porque é contra o voto de cabresto, mas apenas quando as “reses” não forem direcionadas para o curral que almejam que elas rumem. É a mesma gente que prega que o Nordeste foi quem elegeu Dilma, porque aqui se depende de bolsa família, mas talvez não saiba que o “estado mais rico da nação” possui o segundo maior número de beneficiários do programa, porque ser mais rico, por si só, é um título mais bonito, não importa quanto essa riqueza esteja concentrada. 
É o mesmo povo que nem se dá o trabalho de ir procurar o número de votos de Dilma no Norte-Nordeste (algo em torno de 24,6 milhões) e no Sul-Sudeste (algo em torno de 26,7 milhões de votos), e tudo isso está disponível no site do TSE, por exemplo. É a mesma gente que não se importa se Minas Gerais e Rio de Janeiro, dois importantes colégios eleitorais brasileiros, deram a vitória pra Dilma, e no RJ isso ocorreu com expressivos 54,94%, em Minas com 52,41%. É a gente que se acostumou com a lógica binária, com o maniqueísmo de bem e mal, e vê no mapa azul e vermelho que as agências de notícias apregoam, como uma forma didática de analisar o Brasil pós eleitoral. E é nessa lógica binária, que ora negam, ora reforçam, que costumam dizer que o PT dividiu o Brasil. 
Ora bolas, dividido esse país esteve desde a sua fundação, seja pelas capitanias hereditárias, seja pelos abismos sociais existentes. Seja no bairro nobre que convive lado a lado com os irmãos favelados, embora um torcicolo congênito o impeça de olhar pro lado. Seja nas nossas cidades, que o centro é delegado a alguns, as periferias e todo o seu ônus (extermínio da juventude negra, por exemplo) a MUITOS. Seja no nosso campo em que alguns detêm imensos latifúndios e a outros cabe ser rendeiros, não importa se a terra do patrão foi conseguida por meio de grilagem, da morte de comunidades quilombolas ou indígenas. 
As nossas divisões existem, estão aí gritando pra serem vistas, grifadas em marca-texto amarelo limão, mas os “politizados” viram a divisão só hoje, com grifos de vermelho PT. É a gente que ama filantropia, ama distribuir brinquedo, cesta básica, material de higiene pessoal em abrigos, em obras da igreja ou religião que segue, principalmente se puder e tiver como postar foto no facebook. Ama a filantropia, mas vê justiça social com desdém, como alimentar porcos, como política de pão e circo. É a gente que odeia corrupção, mas não importa se teve que fraudar um processo seletivo, se mostrar pobre de Jó, pra conseguir uma bolsa na universidade. Se teve que se valer das cotas para entrar numa universidade pública, mesmo verborreiando “meritocracia” por cada brecha de seus caninos afiados. É a gente que odeia o nordeste, que tem até a capacidade de soltar para um entregador de água que atrase na entrega um “além de nordestino você ainda é burro?”, mas que teve que vir pra essas terras áridas, de gente de coração quente, tentar sorte na vida. 
É a gente que respeita a democracia, mas acha alienado quem votou no partido que não apoiava, que acha que lutou muito, não importa se coagiu pacientes a votar em Aécio no meio de uma consulta, ou se, na condição de patrão, chantageou o empregado para seguir sua vontade política, mesmo sendo contra o voto de cabresto. É a gente que deslegitima todo movimento social, toda luta popular, mas que acha que é o ápice da movimentação política, que sua luta foi grande. 
É a mesma gente que se auto-intitula elite intelectual, porque é o vestibular quem dita quem é elite intelectual, ou não. Entrou num curso concorrido: Elite. Não entrou: recalcado, porque não é elite, vai ter que suar muito pra chegar no meu patamar de elite. 
E, de gente assim, eu só tenho uma coisa: PREGUIÇA.

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* Fábio Amorim é aluno do curso de medicina na Universidade Federal do Vale do São Francisco
 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Minhas rápidas impressões sobre "A carta de Aécio Neves aos médicos".

Abaixo reproduzo na íntegra a chamada "Carta de Aécio Neves aos médicos". 
É bom que todos leiamos para nos instruirmos para o debate e para a escolha do próximo dia 26/10/2014. 
Primeiro, se vocês observarem, a todo o momento, durante o primeiro turno, Aécio e Marina disseram que manteriam o "Mais Médicos". 
Na carta aos médicos, o que se vê é uma execração desse programa com as mesmas palavras ocas e falta de argumentação usada pelos médicos e estudantes de medicina, enfim, música para os ouvidos deles e, no mínimo, mentiroso e contraditório. 
 No mais, não comentarei mais a carta, deixarei para quem quiser lê-la e ter suas próprias opiniões, mas ressaltarei uma proposta: linha de financiamento do BNDES para a abertura de consultórios para os médicos recém formados. 
Isso é a cara do PSDB. 
O que essa proposta quer dizer? Bem, o governo vai captar recursos no exterior a 12,5% ao ano e emprestá-lo aos médicos recém formados a 4,5%. Eu e o restante da sociedade pobre e sofrida do Brasil subsidiaremos a diferença. Sim, nós pagaremos o empréstimo que o governo concederá a esses jovens profissionais recém formados.
No final o que ocorrerá? O médico recém formado montará o seu consultório com dinheiro público subsidiado e cobrará R$ 250,00 (duzentos e cinquenta reais) pela consulta.
Por certo, os médicos aecistas acham essa é uma ótima proposta para a melhora da saúde pública.
Coitados dos pobres brasileiros mais humildes, não poderão nem pisar na calçada do consultório pago por eles.  
Isso é elitista e é a cara do PSDB por que é um tipo de política que não olha o social, mas somente o econômico e, no caso concreto em análise, o eleitoral.

Aqui a íntegra da carta:
"Caro amigo, Todas as pesquisas de opinião revelam que o acesso a um sistema de saúde qualificado é a prioridade dos brasileiros. Tanto na saúde pública quanto na saúde complementar, o Brasil avançou muito desde a década de 90. Mas, com certeza, há muito a fazer. Assegurar os direitos de cidadania na saúde previstos na Constituição brasileira é tarefa complexa e trabalhosa. 
Exige liderança, experiência e clareza estratégica, e demanda capacidade de diálogo para a construção das parcerias necessárias, principalmente com os médicos brasileiros que são e serão protagonistas insubstituíveis na construção, no Brasil, do sistema de saúde dos nossos sonhos. Desafio como esse não comporta amadorismo, não demanda aventuras, requer liderança política e capacidade de gestão. Como presidente da República, irei aumentar os investimentos do Governo Federal, apoiando o projeto de lei de iniciativa popular endossado por entidades da sociedade civil que arrecadou mais de 3 milhões de assinaturas em defesa da aplicação de 10% da Receita Corrente Bruta da União exclusivamente para a saúde. Vamos profissionalizar a gestão do Ministério da Saúde, da ANS, da ANVISA e de todos os órgãos ligados ao sistema, qualificar a atenção primária e ampliar o acesso aos serviços ambulatoriais e hospitalares. 
O atual governo, na discussão e implantação do programa que ganhou o nome de MAIS MÉDICOS, atropelou o diálogo, mistificou a discussão, desrespeitou os profissionais brasileiros e tentou jogar a população brasileira contra nossos médicos. Ninguém pode ser contra mais médicos para atender a nossa população. Mas dizer, como o fez a candidata à reeleição, que o grande legado dos médicos cubanos será ensinar como se trata a população de forma humanizada é desrespeitar os médicos brasileiros, construindo no imaginário popular uma caricatura injusta. Ora, por que juízes e promotores vão para o interior e os médicos não? Porque não há carreira, retaguarda, segurança e parceria estratégica. 
Como presidente, vou viabilizar a Carreira Médica Nacional do SUS, assim como para os demais profissionais de saúde, e manter um diálogo permanente com as categorias, assegurar agências regulatórias regidas pela meritocracia e pela eficiência para garantir o bom convívio entre operadoras, prestadores e profissionais da saúde complementar. Também vamos criar um programa de financiamento pelo BNDES para que jovens profissionais de saúde tenham acesso a consultórios. O atual governo rompeu com os médicos brasileiros, expondo-os a uma tentativa de execração diante da opinião pública brasileira, como se bastasse importar médicos cubanos para encontrar as respostas que há 26 anos o SUS procura. Sabemos todos que isso é mentira e uma fuga da busca de soluções sólidas e duradouras. 
É preciso dar um basta nessa situação! O Brasil e o nosso sistema de saúde exigem mudanças profundas. Introduzimos avanços importantes em Minas e conheço os caminhos para a mudança necessária. Por isso, venho pedir o seu apoio, o de seus colegas de trabalho, familiares e pacientes. O atual governo faz mal à saúde. Vamos juntos, com diálogo e parceria, avançar na construção do sistema de saúde que os brasileiros desejam e merecem. 
Um abraço fraterno,"
Aécio Neves