sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Dilermando, Pau dos Ferros e as redes sociais

Meia hora gastei pensando no título dessa postagem, por que eu queria alguma coisa que pudesse dizer ao leitor que eu quero aqui fazer um paralelo entre o caso de Dilermando, aquele desembargador arrogante que destratou um garçom lá em Natal, de Dhiego Fernandes, um professor xenófobo preconceituoso que se referiu a Pau dos Ferros, uma cidade aqui do interior do RN, de forma infeliz e, sobretudo,  da reação que a sociedade potiguar - e brasileira - teve nos dois eventos.
Ambos os casos guardam similitudes, principalmente por que expressam a ação de um opressor sobre um oprimido. Com Dilermando isso é bem fácil de perceber: ele é desembargardor, "autoridade", poderoso, dono do mundo e o garçom, coitado, apenas alguém querendo ainda ascender à classe "C".
Já o caso de Dhiego é mais sutil. Ele não destratou ninguém diretamente, nem é uma autoridade. Aliás, segundo se diz, ele apenas expressou sua opinião xenofóbica e sem fundamento.


Comecemos dizendo que Dhiego é um forasteiro, vem de Natal, capital do estado, reforçando no ideário popular pauferrense a ideia de que se trata de um "opressor metropolitano". Temos aí uma memória popular que remonta a colonização. 
Na série de famigeradas postagens, ele se disse, nas entrelinhas, como superior e, não só pelo fato de ter chamado Pau dos Ferros de "cabaré", sempre se pôs como uma espécie de versão moderna de Carlota Joaquina - aquela que chamou o Brasil de quinto dos infernos e bateu os pés para daqui não levar nem areia, quando foi-se embora de volta para Portugal. Isso ficou bem evidente com o uso do termo "nativos", que não tem, para as ciências humanas, qualquer sentido pejorativo, mas no contexto do que falou esse Professor, caiu muito mal.
O fato é que a opinião que ele tem de Pau dos Ferros é totalmente caricata e descontextualizada, típica de xenofóbicos ignorantes. A cidade sofre com o abastecimento de água, é verdade, mas isso não é uma realidade pauferrense. Ao contrário, é mundial. Inclusive, Natal, nossa capital e cidade de Dhiego, enfrenta problemas seríssimos e, se não bebe "lama", bebe água poluída com nitrato oriundo das fossas não saneadas, que são muitas. Há, inclusive, projetos de se construir uma adutora da barragem Armando Ribeiro Gonçalves para Natal, da mesma forma como há uma adutora da barragem de Santa Cruz para Pau dos Ferros. Tudo é no sentido de se resolver a questão do manejo dos recursos hídricos, algo muito sério e o qual faz até mesmo cidades como Londres, Nova Iorque e Tóquio sofrerem. 
Engraçado, também, é que ele fala que os pauferrenses votam no Democratas - o que não é nada demais, senão o exercício de um direito -, mas o maior líder nacional desse partido é José Agripino, com maciço apoio dos eleitores natalenses, sua base eleitoral. Isso sem falar de seu filho, Felipe Maia, herdeiro da oligarquia, deputado federal, que também é sempre reeleito pelos eleitores de Natal, que também elegeram Micarla e adoram Wilma de Faria, Carlos Eduardo e gente com nome terminado em "Alves", assim como os mossoroenses adoram Fafá, Rosalba e afins. Não saber votar não é só um mal de Pau dos Ferros, mas do Brasil, infelizmente. Basta nos lembrarmos que o estado mais rico, São Paulo, elegeu como seu deputado federal o palhaço Tiririca.
 Mas, enfim, o que mais me encantou foi a reação popular nos dois casos. Tanto no de Dilermando, quando o um cidadão não aceitou a situação e partiu em defesa do garçom oprimido, como no de Dhiego, quando os pauferrenses reafirmaram seu sentimento de localidade e não aceitaram a humilhação que o forasteiro tentou lhes impor. 
A sociedade potiguar vivenciou dois momentos nos quais pôde demonstrar ao restante da sociedade brasileira que não é se calando frente às injustiças que nós vamos progredir como país. Temos mesmo é de nos indignarmos, de nos revoltarmos e de coibirmos esse tipo de atitude que nos envergonha. 
Por fim, se pudesse, diria a Dhiego para não achar ruim se um dia, na Europa ou em outro lugar, sofrer xenofobia. Afinal, ele é um brasileiro que quando vai ao exterior sofre xenofobia; é um nordestino que quando vai ao centro-sul sofre xenofobia; é um potiguar que exerce xenofobia. Situação ilógica? Não, burra mesmo.

3 comentários:

  1. Texto esplêndido! De fato, quanta Ironia! A ignorância com suas proclamações preconceituosas que irritam e causam constrangimento...

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