segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

De repente, Mandela é pop...

... e isso é muito bom! 


Uma personalidade como essa jamais poderia ter o acontecimento de sua morte passado em branco. É mesmo normal que a mídia dê muita ênfase a esse fato, como é normal que pessoas dos mais variados espectros ideológicos tentem construir todo o tipo de discursos sobre Mandela, quase todos se apossando de sua história e subvertendo-a em seu favor.  
O que gostam de análises mais profundas precisam ter cuidado ao se debruçar sobre essas versões que datam agora de dezembro de 2013. 
Umas o endeusam, o tornam uma criatura imaculada, pura, uma imagem quase religiosa. Isso é tudo o que Mandela jamais foi, assim como também não foi um comunista radical de esquerda.
Aliás, no momento mais crucial de sua vida, após a saída do cárcere, já na presidência, ele foi conservador e muito, pois não rompeu com os antigos dominadores, mas procurou compor alianças com eles. Bem, isso não é o melhor exemplo do que é ser de esquerda, mas foi exatamente essa a sua grande jogada de mestre. 
Ora, Mandela tinha a exata noção de que, naquele momento, nos anos 90, precisava construir um sentimento de nacionalidade uno e sólido em toda a África do Sul. Uma nova Constituição precisava ser promulgada e nova Instituições estavam nascendo. Se Mandela agisse diferente, se tivesse sido beligerante, se não tivesse sido conservador, tudo iria por água abaixo e o país poderia novamente mergulhar numa ditadura - negra ou branca. 
Para evitar isso, era preciso fazer com brancos e negros se juntassem para construir um país. 
Isso não se faz com rupturas traumáticas, mas com calma e inteligência.  Por isso, o empenho de Mandela de fazer com que a população negra abraçasse a seleção de rugby e torcesse por ela como nós torcemos pela nossa seleção de futebol. Ele estava, ali, querendo criar um símbolo no ideário das pessoas, um símbolo incolor, nacional.
Num determinado momento de sua vida, nosso personagem histórico enveredou pela luta armada, é verdade. Porém, eu lhe digo, nada mais legítimo naquele momento.
Os homens são frutos de seu tempo e de sua realidade histórica. 
O apartheid foi, seguramente, junto com o Nazismo - de quem é cria - o momento histórico mais tenebroso do século XX. Todas as experiências humanas nesse sentido são desastrosas, feias, nos enchem, como humanos, de vergonha. A ideia de raça superior só serve para incitar o ódio e criar feridas profundas na história de um povo. É só vermos o caso da Alemanha, dos Bálcãs, da Palestina e da própria África do Sul, por exemplo. Em última análise, além de descabida, tal concepção xenofóbica é burra, como já por diversas vezes disse nesse blog. 
Não existem raças, mas apenas etnias que nada mais são que adaptações físicas a um meio externo. Não são um motivo de superioridade ou de inferioridade. 
Mandela sabia disso e foi um ícone. Com parcimônia, carisma, inteligência e boa dose de conservadorismo, ele conseguiu construir um país.