quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Sobre o "Mais Médicos", parte 01.

Muito me espanta tamanha repercussão de um programa tão trivial e óbvio quanto esse. Ora, se um país não tem médicos e não tem tempo de formá-los imediatamente, tem de importá-los, claro. Trata-se a saúde de uma área prioritária, falamos de vidas. Não dá para ficar debatendo sobre o sexo dos anjos - como quer o CFM - com tergiversações que não resolvem o problema.
Não entendo por que alguns médicos e os setores mais conservadores têm tanto medo de médicos que vêm de fora para ocupar lugares que não são nem serão ocupados por brasileiros que jamais demonstraram qualquer interesse de irem para os grotões do país. 
Aliás, diga-se, do ponto de vista profissional, os médicos estão certíssimos. Eu também, se fosse médico, não iria para a Amazônia se tivesse condições de ganhar muito bem num grande centro. Isso é justo e correto. Ninguém é obrigado a ser franciscano e a trabalhar por amor à profissão, simplesmente. 
Ocorre que os médicos deveriam ser honestos com a população. Deveriam dizer: nossa profissão é muito boa, tem 100% de empregabilidade no Brasil, muito boa rentabilidade salarial e nós não temos de interesse de irmos para os interiores. Pronto, simples assim.
Os médicos brasileiros estão certos em não quererem ir para o interior e o governo está certo em trazer de fora gente que queira ir. Esse é o ponto que precisa ser entendido.
Não entendo os médicos que adotam um raivoso discurso reacionário e irracional sobre o programa. Até agora não vi um só argumento válido que me demovesse de minha posição de ser francamente favorável à tentativa do governo federal de melhorar as reconhecidamente precárias condições de nosso sistema de saúde pública. E, claro, a melhoria começa trazendo médicos para onde não tem.
O CFM tem sido patético. Não entra no debate apresentando soluções viáveis, mas só com um velho blá-blá-blá inútil.
Enfim, minha análise é sempre muito objetiva. Vamos aos dados.
Primeiro, o Brasil é um só país do ponto de vista político, mas vários países do ponto de vista geográfico, digamos assim. Não dá para pegar um dado nacional e usá-lo indiscriminadamente para todas as regiões do país. Por isso, esse é um outro fator muito positivo do programa: ele reconhece que há vários "brasis" e estabelece o que o art. 1º, I, da Medida Provisória do Mais Médicos chama de regiões prioritárias para o SUS. É para essas regiões prioritárias que vão os médicos do programa. 
Além disso, em dados objetivos, segundo a OMS, há 17,6 médicos no Brasil para cada 10 mil pessoas. A taxa é um pouco inferior à média do restante dos países emergentes - 17,8. O índice também é inferior à média das Américas (mais de 20). Mas é a comparação com os países ricos, principalmente da Europa, que revela a disparidade entre a situação no Brasil e nas economias desenvolvidas. Em geral, existem duas vezes mais médicos na Europa que no Brasil - 33,3 a cada 10 mil habitantes. São 48 médicos na Áustria a cada 10 mil cidadãos, contra 40 na Suíça, 37 na Bélgica, 34 na Dinamarca, 33 na França, 36 na Alemanha e 38 na Itália. 
A situação é mais agravante quando analisamos os tais vários "brasil". No Sudeste, por exemplo, a taxa é de 26 médicos por 10 mil habitantes, superior à dos Estados Unidos (24), Canadá (20) e Japão (21) de saúde no mundo. Mas, nos Estados do Norte, são 10 médicos para cada 10 mil pessoas, abaixo da média nacional de países como Trinidad e Tobago, Tunísia, Tuvalu, Vietnã, Guatemala, El Salvador ou Albânia. No Nordeste, a taxa é de 12 médicos para cada 10 mil pessoas - no Maranhão, chega a 7 médicos por 10 mil, taxa equivalente à da Índia ou do Iraque. A situação mais dramática, porém, é ainda da África, com apenas 2,5 médicos a cada 10 mil habitantes. Essass informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".
Por esses dados, o Brasil, claramente, precisa de médicos. 
Isso é fato indiscutível e inafastável e o governo não pode ficar esperando para resolver a situação.
Claro, há muito mais para ser dito e deixarei para assim fazer no segundo post no qual abordarei essa temática, quando penso em rebater, um por um, cada um dos falhos argumentos dos que são contrários ao programa.
Para concluir, dizem que muitos médicos brasileiros se inscreveram no programa para boicotá-lo. Segundo consta, até o momento um terço dos médicos do programa não se apresentaram em seus postos de trabalho.
Se isso for verdade, é lastimável e cruel.


Um comentário:

  1. Concordo em parte com você, Raul. O programa é um excelente meio de trazer à populações, outrora ignoradas, melhorias notáveis na qualidade de vida, claro que isso é apenas suposição, uma vez que o programa ainda há de mostrar seus possíveis frutos, mas é uma proposição provável. Por outro lado, pode-se perceber que essa solução ignora alguns fatores dignos de atenção, como a clara diferença linguística ou mesmo as diferenças de formação entre ambos profissionais, brasileiro e estrangeiros. Além disso, faz-se necessário apontar, a qualidade pífia encontrada em diversos setores, não apenas no de saúde pública, como a falta de materiais, de infra-estrutura, de meios de transporte, como ambulâncias; enfim condições precárias. Isso demonstra que há muito mais além da falta de profissionais qualificados em diversas regiões da nação. Em outro ponto, discordo das manifestações irracionais e,algumas vezes,xenofóbicas e racistas, conduzidas por certos "representantes" de nós, médicos e estudantes de medicina. Não os considero meus representantes, pelo menos não quando seus pontos de vista são tão enviesados. Talvez eu esteja completamente errado nas minhas suposições, se estiver espero ser iluminado em breve, tudo isso são apenas opiniões de um estudante qualquer :)

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