sábado, 5 de novembro de 2011

Avanço discreto

Editoral da Folha de São Paulo
05/11/2011

Posição mediana do Brasil no ranking mundial de desenvolvimento humano revela progressos, mas em ritmo aquém do desejável.

É de praxe iniciar análises sobre rankings internacionais de desempenho com ressalvas sobre as deficiências de comparações de quase duas centenas de países baseadas numa cesta de indicadores -ou praticamente num trio deles, caso do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, divulgado nesta semana.
É frequente, ainda, que se aponte a aparente obviedade dos resultados gerais. Não espanta que, ano após ano, conhecidas nações ricas do Norte, acompanhadas de países da Ásia e Oceania, dominem o topo da lista, cabendo à África subsaariana as posições mais baixas.
Mas, por óbvia que seja, a hierarquia da qualidade de vida nesses rankings serve para temperar avaliações baseadas apenas em indicadores como o tamanho das economias e dos mercados. Nesse sentido, a divulgação do índice é útil para matizar a euforia com que alguns que têm acompanhado os progressos do Brasil.
Um exame dos diversos componentes do IDH mostra que em muitos deles apenas acompanhamos a média. Não causa espanto que a posição geral do país no ranking, 84º lugar, seja mediana, situando-se na faixa intermediária da distribuição dos 187 países avaliados: abaixo dos países ricos do Norte, acima dos africanos e asiáticos do Sul. Chama a atenção, além disso, a inferioridade em relação a países vizinhos que tradicionalmente dão mais importância à educação, como Chile, Argentina e Uruguai.
Apesar das inegáveis melhorias, que se registram pelo menos desde meados da década de 1990, o mapa do IDH indica que em muitos aspectos essas conquistas acompanham a maré montante mundial, impulsionada por aperfeiçoamentos tecnológicos e sanitários.
Com efeito, a taxa de progresso socioeconômico do Brasil desde o ano 2000 apresenta o mesmo ritmo dos 47 países do seu "grupo".
É importante observar, entretanto, que o IDH sintetiza num número a renda per capita, a média de anos de estudo e a expectativa de vida ao nascer. Com exceção da renda, esses indicadores variam lentamente -o que explica nossa estagnação relativa.
O Brasil passou a se ocupar sistematicamente da educação básica apenas no último decênio do século passado. Uma vasta parcela da população jamais recuperará os anos de escola que não fez, enquanto as novas gerações vivem num país melhor.
Ainda assim, chama a atenção o fato de que o número médio de anos de estudo no Brasil supere quase que exclusivamente o dos países de IDH baixo. Mais preocupante é constatar que a comemorada queda na desigualdade de renda aconteceu, mas apenas evitou que nos tornássemos os campeões inequívocos da injustiça, já que nove países apresentam iniquidade mais grave que a brasileira -contra cinco, há cerca de dez anos.

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