sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Terá a esquerda perdido o discurso?

Como isenção total é algo impossível de se alcançar, nem tampouco é esse o objetivo deste blog, e também para ser honesto com os meus leitores, começarei logo dizendo que eu me considero de centro-esquerda, mesmo apesar da dificuldade que eventualmente possa haver para se chegar a esse conceito.
Outro aviso: Vou falar muito a palavra "esquerda", terei de ser redundante.
Também aproveito para repetir aqui o que disse no post anterior: não tenho maiores preocupações acadêmicas no trato desta temática. Apenas buscarei demonstrar alguns dos pontos que tenho visto na esquerda, nos últimos anos/dias.
Quanto ao tema, é preciso se dizer que a esquerda sempre tem sido associada às ideias progressistas. Por isso, geralmente, certas transformações na sociedade são apoiadas, na vanguarda, por partidos como o PT e o PSOL, por exemplo.
Durante a Guerra Fria, ser de esquerda era ser marxista e comunista/socialista. Defendia-se a igualdade, mas a liberdade não era prioridade. Passado esse momento, muitos esquerdistas viram-se sem discurso, inclusive na América Latina. A década de 90, foi, então, um período de reestruturação da plataforma, quando temas como a maior participação do Estado na economia e a rechaça aos EUA e ao FMI se tornaram fortes bandeiras de partidos como o PT, por exemplo. Basta nos lembrarmos que, até as eleições de 94, Lula defendia a moratória da dívida externa. Registre-se que, até hoje, o PSOL defende essa ideia. Falando nisso, por um instante, lembro-me das passeatas as quais participei quando era estudante de geografia, entre 1999 e 2002. Nosso maior slogan era "Fora Bush, FHC e FMI". Dizíamos que o significado de FMI era Fome, Miséria e Impostos altos. À época, não estávamos de todo errados.
O mundo e o Brasil mudaram. Também assim a esquerda. Embora ainda haja os que falam em implantação do socialismo e acham Cuba um exemplo a ser seguido, a globalização, ao meu ver, tornou essas bandeiras obsoletas.
Precisamos de mais democracia, mais participação política e mais investimentos sociais. Segundo entendo, essas bandeiras não são de direita, nem de esquerda. São genéricas, são do país.
Por isso o Brasil vive uma situação interessante: Os de direita têm vergonha de assim se caracterizar e a esquerda não tem mais discurso e, se ainda o tem, como no caso de partidos como o PSTU e o PSOL, por exemplo, não é pragmático, não se pode colocar em prática.
Tenho sempre dito que o socialismo, teoricamente, como modelo de desenvolvimento é preferível ao capitalismo. No entanto, não é factível, não é real, não é pragmático.
O que fazer, então? Em minha visão é simples: distribuir renda, ofertas serviços públicos de qualidade, incentivar o crescimento da economia, melhorar nosso IDH e tornar a vida dos brasileiros melhor. Isso independe de ser de direita ou de esquerda.

4 comentários:

  1. "Nada mais conservador que um liberal no poder". Eis nossa perene realidade.

    De D. Pedro II a Lula, onde esteve nossa esquerda? O socialismo falava em popularização do poder, socialização dos meios de produção e do governo.

    Infelizmente, o que muitos pensam se tratar de socialismo, na minha humilde concepção não passa de filantropia.

    P.S. Se servir para suscitar um debate, eu acredito que em essência o ser humano é capitalista, daí a trajetória fracassada do comunismo na história da humanidade.

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  2. O debate tá suscitado! Sabe, Eduardo, eu sempre ouvi isso e sempre resisti a essa ideia. A natureza humana é algo muito complexo para dizermos que é dessa ou daquela forma. Pra mim, todo e qualquer modelo de desenvolvimento pensado pelo homem, segue sua natureza, por que foi por ele feito. Entende?
    Enfim, muitos pensadores renomados pensam como vc.

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  3. Raul(e demais leitores), é difícil, depois de estudar Hobbes, conceber em nossa mente um homem cujo instinto socializador esteja imanente. Basta vermos a odisseia na qual consiste o desafio que é um pai ensinar um irmãozinho dividir o sorvete com o seu par.

    Na teoria do referido estudioso, esse desafio é delegado a um mostro todo poderoso chamado Leviatã. Eu acho que os russos sabiam disso, pois foi praticamente impossível dissociar o socialismo do totalitarismo.

    Já no tocante ao capitalismo, percebemos que não existe nada mais inerente ao cidadão portador de uma bicicleta que o desejo de comprar uma moto. Portanto, o desafio maior da humanidade tem sido lutar contra as ambições, contra a concupiscência. Era disso que Aristóteles falava em sua "ética nicomaqueia".

    Lutar contra a concupiscência tem sido o desafio maior da humanidade desde os primórdios. Foi disso que falou Eduardo Galeano em suas "veias abertas..."

    Infelizmente, nos dias atuais, falar de socialismo é falar de um modo de produção que consolida o domínio dos detentores do poder sobre as camadas menos abastadas (quem não lembra do socialismo de centro-esquerda dos dois governos de Lula?)

    Por fim, sugiro que leiam sobre a teoria da ação comunicativa de Habermas. Nada como a informação e o conhecimento para que alcancemos uma democracia plena.

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  4. Talvez por romantismo eu rechace um pouco essa ideia de capitalismo ínsito à própria natureza do homem, não sei. Será que o comunismo primitivo também não advinha da natureza humana naquele momento? O fato é que é também de nossa natureza a vontade de viver melhor e de viver num ambiente equilibrado. O capitalismo, do jeito que está no mundo, não nos oferece isso.

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