terça-feira, 20 de setembro de 2011

Carajás: a gente aqui só pensa nisso

Neilton Gomes
extraído do site do Senador Demóstenes Torres

A rodovia PA 150, ou BR 155, ninguém sabe ao certo, é a principal estrada do sudeste paraense, a região que quer pendurar mais uma estrela na Bandeira brasileira. De Marabá a Conceição do Araguaia são 450 quilômetros de asfalto esburacado, poeira no verão, atoleiro no inverno, acidentes fatais, assaltos, abandono, abandono e abandono. Quem vem de Goiânia pelo Tocantins, do alto da ponte sobre o Rio Araguaia pode pensar que está saindo do País para entrar numa republiqueta bombardeada. A polícia, fortemente armada, manda parar, checa documentos, pede para abrir porta-malas. Ônibus e caminhões parados, bagagens revistadas, mercadorias conferidas. Bem-vindo. E você segue, tentando equilibrar o carro entre o matagal e a buraqueira.
Se você conseguiu ler até aqui, haverá de entender por que a gente quer tanto redesenhar o mapa do Brasil, colocando uma linha dividindo o Pará dos 39 municípios do Carajás. A calamidade da rodovia PA 150, ou BR 155, é apenas um dos nossos problemas. A própria confusão dos nomes da estrada, se PA ou BR, ilustra bem a tese de que estamos sós. Nem Belém, nem Brasília. Nada. O Estado quer jogar a pista no colo da União, que até hoje não assumiu a maternidade. Ora, a rodovia é nossa, deixa que a gente cuida. Deixa que a gente zela pela educação e trata da saúde. Mas deixa aqui também nossos impostos e nossos votos.
O tema das conversas aqui é a divisão do Pará, que será decidida em plebiscito dia 11 de dezembro próximo. Os eleitores do Estado estão convocados para dizer sim ou não para a criação de Carajás e Tapajós. Na mesa dos botecos, na saída das igrejas, nas esquinas, nos campos de futebol, no trabalho, todo mundo só fala nisso. Todo carro tem um adesivo com o dedão fazendo sinal de positivo para dizer SIM, no dia do plebiscito, a “Mais escolas”, “Mais Justiça” e tudo mais que falta aqui – e o rol é grande. Falemos das escolas do Pará, as piores do Brasil, segundo o ranking do Ideb, que mede o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. Nota 3,6, numa escala que vai a 10. Abaixo dos 3,8 da média da Região Norte. Bem atrás dos 4,6 da média nacional. O Tocantins recebeu 4,5. Goiás, 4,9. O Maranhão dos Sarney, 3,9. As Alagoas de Fernando Collor e Renan Calheiros, 3,7. Nós, 3,6: dois números que resumem tudo. Estamos no fundo do poço.
Os políticos do Pará não têm medo de nos perder. Acompanhe os argumentos das lideranças políticas de Belém pelos jornais. Nem falam na gente. Querem mesmo é nos mandar, esses estrangeiros, de volta para Goiás, Maranhão, Minas, Paraná. Falam nas 50 toneladas de ouro, paládio e platina que serão extraídas de Serra Pelada a partir do ano que vem. Falam do ferro de Canaã dos Carajás, em quantidade suficiente para mais meio milênio de exploração, coisa de fazer chinês abrir o olho. Da gente, nem uma vírgula, e ponto final. Nossa identidade com eles também é zero. Chega da hipocrisia paz-e-amor, das cantiguinhas de união, e trololó, e trololó. Nós queremos é distância deles. E Belém quer é ficar com o ouro de Serra Pelada, e o ferro de Canaã, e continuar nos mandando espelhinhos.
Quando a gente se queixa de Belém, pelo amor de Deus, não pense que estamos falando da gente sofrida da periferia. Não. Os pobres em Belém estão tão distantes quanto nós dos benefícios que a riqueza do Pará poderia proporcionar. Lá, na cara do governo, o esgoto corre a céu aberto. Lá, sob o bigode das autoridades, o crack promove um genocídio. O governo também não existe nas cercanias de Belém, e a bandidagem aproveita o vácuo para estabelecer seu império do medo. Quando a gente dispara algum xingamento contra Belém, o alvo é a elite política incompetente, omissa, corrupta, que mata sem-terra, que assassina bebês na porta do hospital, que rouba descaradamente a Assembléia Legislativa. Pense você: se os políticos do Pará entregaram a capital deles ao esgoto e ao crime, nunca vão se mover por nós, estrangeiros, que moramos a mais de mil quilômetros de distância.
Tentaram desmoralizar a campanha pelo Carajás com o argumento de que estávamos tentando criar mais um Estado sanguessuga das verbas federais. De fato, havia a desconfiança de que o novo Estado seria apenas mais um bebê guloso pelas tetas da Pátria Amada. Mas o restante dos brasileiros pode dormir tranquilo, não vamos ajudar a depauperar o saqueado Tesouro Nacional. O minucioso estudo elaborado pelo economista Célio Costa provou que o Carajás é superavitário. Seu PIB seria de 20 bilhões de reais, a 19ª economia entre as unidades federativas. Não nasceremos ricos como o Paraná nem pobres como o Piauí. Mesmo sem contar com uma sólida política de industrialização e de fortalecimento do comércio, somos autossustentáveis.
A divisão seria um favor para o Brasil, jamais um ônus, especialmente quando o mundo volta seu olhar sedento para a Floresta Amazônica, em que se concentram as maiores reservas de água doce, de minério e de biodiversidade do Planeta. A parte verde-amarela da floresta tem um território de 4,8 milhões de quilômetros quadrados, com 11 mil quilômetros de fronteira com outros países. A Europa inteira, incluindo a parte não-asiática da Rússia, tem pouco mais de 10 milhões de quilômetros quadrados. Gente aqui é uma espécie rara. Nos 296.660 quilômetros quadrados que correspondem ao futuro Estado do Carajás, por exemplo, habitam apenas 1.372.590 almas, média de 4,6 habitantes por quilômetro quadrado. Nada, a não ser a boa vontade estrangeira, garante por enquanto a soberania brasileira sobre essa imensa riqueza.
O Carajás será um posto avançado do Brasil na Amazônia. O progresso promovido pelo novo Estado vai atrair brasileiros de todos os quadrados. O pressuposto lógico é o de que o governo de Carajás vai construir obras de infraestrutura que impulsionem o desenvolvimento. Que faça rodovias, pontes, portos e aeroportos para integrar a nova unidade federativa e esta ao restante do País. Incentive a indústria, especialmente as dos setores minerossiderúrgico e agropecuário. Crie escolas, bibliotecas e teatros e coloque um pouco de luz nesta escuridão medieval em que vivemos. Tudo isso gera emprego, produz riquezas e atrai multidões para esse ponto quase vazio do Planeta. Seremos guardiães do maior tesouro do País ao povoar a floresta, garantindo a soberania nacional sobre a água doce, o minério, as matas e os bichos da Amazônia.
A interiorização do desenvolvimento é vital para o Brasil, e o País nos deve isso. Os números do estudo do economista Célio Costa mostram o tamanho da disparidade regional. Sete estados do Sul-Sudeste, com 17,6% do território nacional e 56% da população brasileira, controlam 73% da riqueza nacional e 82,7% do produto industrial. Ao restante dos brasileiros, que ocupa 81,4% do território do País, cabem nanicos 27% do PIB. Não é justo. Fere a Constituição federal, que prevê o desenvolvimento regional como um dos objetivos fundamentais da República. E é um grave erro estratégico para um país de dimensões continentais. Ao concentrar a riqueza e a população em um cantinho do território, abre perigoso vácuo à cobiça estrangeira e impede que outras mãos e cérebros ajudem a impulsionar o Brasil ao primeiro mundo.
A gente vê do outro lado do Rio Araguaia que a divisão foi muito boa para o Tocantins e para Goiás. Separados, os dois cresceram mais que a média nacional. Entre 1995 e 2007, a média de crescimento nominal do PIB em todo o País foi de 39,7%. No mesmo período, Goiás cresceu 57,3%, o Tocantins avançou 68,6%. Todo mundo ganhou. O Tocantins é pobre, mas tem estradas boas. Não vive a febre do ouro, mas tem hospitais, que ajudamos a lotar com nossos doentes. Não exporta ferro pra China, mas tem escolas com professores bem remunerados para os padrões do Pará. Tem Justiça célere, se comparada à nossa. Tem imprensa. Se o Tocantins, que Goiás supunha ser apenas um grande areal, conseguiu tanto, imagine o que podemos fazer.
Você, que mora em Brasília, Goiânia ou Rio de Janeiro, deve estranhar o fato de a campanha pelo Carajás mirar-se no exemplo do Tocantins. Pra você ter ideia, amigo, a que ponto chegamos. Sou tocantinense, amo aquela terra, onde estão enterrados os meus avós, e, por isso, sei que algo está errado quando o Tocantins se torna modelo de alguma coisa. E está, por isso a luta pela emancipação. Mas vamos consertar tudo isso a partir de 11 de dezembro, dia do plebiscito, data a partir da qual o Carajás vai se separar do Pará de direito, pois de fato já são dois estados bem distintos. Apesar da cantiguinha paz-e-amor da campanha dos divisionistas, a cisão está aberta para sempre. Amém.

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Neilton Gomes Carneiro é advogado no Sul do Pará.

Um comentário:

  1. De forma ignorante, ao ler sobre a criação de novos estados, como é o caso do Carajás, imaginei que seria mais uma unidade federativa a mamar do tesouro nacional. Ledo engano, está claro agora o quanto será importante para o desenvolvimento de áreas pouco exploradas até então.

    Rayr Fernandes.

    Estou lendo o livro 1822 e a impressão que tenho lendo esse artigo é a mesma: o BRASIL está destinado a ser uma superpotência, temos o queijo e a faca em mãos. A questão é quando vamos sair da promessa e nos tornarmos, de fato, aquilo que nascemos para ser.

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