quinta-feira, 28 de abril de 2011

Um casamento de conto de fadas? Que tolice!

Jornal alemão Der Spiegel

O casamento real de William e Kate na sexta-feira (29/04/2011) será uma piada, uma celebração irremediavelmente exagerada de um sistema absurdamente antidemocrático, segundo o correspondente do “Spiegel” em Londres, Marco Evers. Ele se apieda pela perda iminente de liberdade da noiva e se pergunta por que esta nação excêntrica continua a adorar a família Windsor.
A coisa toda parece uma aberração da história.
Está errado quando o chefe de Estado de um país só pode vir de uma família. Está errado fornecer a este clã palácios, terras e toda forma de bolsas para poupar seus membros da indignidade de terem que ganhar a vida e permitir-lhes que vivam no luxo. Está errado se dirigir aos Windsor como Sua Alteza Real ou mesmo Sua Majestade, como acontecerá depois da sexta-feira com a adorável Kate Middleton. Está errado vê-los como qualquer coisa além de pessoas feitas de carne e osso, como eu e você.
Milhões de britânicos sabem disso. O jornal “Guardian” quer abolir a monarquia, assim como o “Independent” e a revista “Economist”. Muitos professores, diretores de cinema, autores, atores e políticos gostariam que o Reino Unido se tornasse uma república –mas eles continuam sendo uma minoria que, por anos, ficou constante em torno de 18% da população.
Cherie Blair, a difícil esposa do ex-primeiro-ministro Tony, certa vez recusou-se a fazer uma reverência para Elizabeth Windsor, mas a maioria dos britânicos gosta de fazer isso e ainda mais pela Rainha e o País. Os Windsor são a família real mais cara da Europa, mas o povo continua pagando sem reclamar, ao menos enquanto a Rainha Elizabeth está viva.

A Rainha é dona de todos os cisnes, baleias e esturjões
O Reino Unido, contudo, é um país estranho. Não tem constituição escrita, mas tem um sistema de classe rígido. Os advogados usam perucas no tribunal e não há cidadãos, apenas súditos. Por lei, todos os cisnes, todas as baleias e todos os esturjões são propriedade da Rainha, mas não há um time de futebol nacional.
E se a Rainha quiser dar essa honra a algum de seus súditos, ele pode orgulhosamente ser chamado de “Oficial”, ou até de “Comandante da Ordem do Império Britânico”. Que diabos esses títulos querem dizer? Grande parte desse salamaleque parece tão antiquada quanto o metrô de Londres.
Os soldados britânicos estão lutando pela democracia no Afeganistão e Líbia, e eles lutaram por ela no Iraque. Mas em casa, eles defendem a ideia absurdamente não democrática que ninguém além de um Windsor pode ser chefe de Estado. Assim que Elizabeth, que tem 85 anos, deixar seu invólucro mortal, seu filho Charles, de 62 anos, já desgastado por sua longa espera para a acessão, assumirá o trono, apesar das pesquisas de opinião mostrarem que a maioria dos britânicos não querem que o príncipe esotérico e introspectivo se torne rei. A pompa e a cerimônia em torno do casamento de William e Kate é a mais recente expressão da excentricidade britânica –mas uma grande parte do mundo parece também estar sucumbindo ao seu apelo.
Sim, as carruagens de ouro e veludo são bonitas, o cortejo da noiva será uma verdadeira visão e a abadia de Westminster é um cenário bastante espetacular para a cerimônia. Mas será que vale todo esse fuzuê? Mais de 10.000 jornalistas estão baixando em Londres. Os canais alemães ARD, ZDF, Sat 1, RTL, n-tv e N24 dificilmente vão transmitir qualquer outra coisa na sexta-feira. Todo mundo está fingindo que este espetáculo é o evento mais importante e bonito da Terra –mas não é.
Estranhamente, o público britânico não está tão interessado no casamento quanto se pensa. A maior parte diz que não liga para o evento. Somente um terço planeja assistir ao espetáculo na televisão. E comparada com as núpcias reais anteriores, relativamente poucos planejam tomar parte nas festas de rua tradicionais. No centro de Londres, os hotéis estão com muitas vagas, apesar de estarem oferecendo descontos para o final de semana.
Milhões de súditos da Rainha já fugiram da ilha em companhias áreas mais baratas antes da Páscoa e agora estão ocupando as praias da Turquia, Chipre, Egito e Caribe. Com certeza, o tempo será melhor do que em Londres, onde a previsão para sexta-feira é de chuva.
O Reino Unido ainda está mergulhado em sua pior crise econômica desde a Segunda Guerra Mundial. Todos deveriam estar arregaçando as mangas para tirar a nação da depressão. Mas o governo declarou o dia do casamento feriado, e as escolas, bancos, escritórios e fábricas estarão fechados –só porque o herdeiro do herdeiro do trono está se casando. O feriado extra pode levar a uma ocupação maior dos bares do país, mas vai terminar custando bilhões à economia.

Um casamento ditado pelo protocolo do palácio
Na verdade, o casamento de William e Kate é um triste espetáculo. Os dois jovens não estão se casando da forma que gostariam, mas como o palácio, o protocolo e a vovó exigem.
William, 28, está acostumado a isso porque nasceu dentro disso. Mas para Kate, 29, sexta-feira vai marcar o fim da liberdade. Para seus pais, será um pouco como a morte da filha. Ela não vai pertencer mais a eles –será elevada a uma forma de ser humano aristocrático distante, sempre indisponível para aquele jantar improvisado com mamãe e papai.
Casamento de conto de fadas? Nem de perto.
Alguns amigos e parentes estarão presentes na abadia de Westminster, mas a maior parte dos convidados será de estrangeiros, e alguns deles serão repulsivos. O rei Mswati, o déspota da nação empobrecida de Suazilândia, que tem 13 mulheres, virá com sua comitiva de 50 pessoas. Os potentados árabes também foram convidados, alguns dos quais atualmente estão matando manifestantes pela democracia em suas ruas. Quem gostaria de se casar em tal companhia?
Metade do gabinete britânico vai participar da festa, junto com o líder da oposição trabalhista Ed Miliband, que sustenta o título grandioso de “Líder da Oposição Leal de sua Majestade”. O antigo primeiro-ministro conservador John Major estará presente. Mas os dois últimos primeiros-ministros trabalhistas, Tony Blair e Gordon Brown, não foram convidados. Será uma punição por terem apoiado a proibição da caça à raposa? Por que o autocrático sultão de Brunei foi convidado e não os dois líderes anteriores de um governo britânico democraticamente eleito?
O mundo todo está esperando para admirar o vestido de casamento de Kate. O estilista ficará afogado em trabalho depois disso. Mas aquela que vestirá o vestido enfrenta um futuro que de fato não deve ser desejável para uma mulher inteligente do século 21. Kate terá apenas três tarefas de agora em diante: servir a seu marido, ser bela e gerar filhos, preferencialmente meninos. Além disso, tudo o que tem a fazer é ficar calada.
É como nos anos 50 –só que muito pior, porque terá que continuar a reverenciando a Rainha e os outros membros da hierarquia da família com a qual está casando.
A coisa toda parece muito pior do que uma aberração da história. É uma piada.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A Xenofobia é burra

Tenho lido muito ultimamente sobre a crise de Portugal e uma matéria em especial me chamou a atenção: O fluxo migratório dos últimos anos inverteu-se. Agora não são mais brasileiros que procuram Portugal por uma vida melhor, mas o contrário. Portugueses de alta qualificação, sobretudo engenheiros, procuram o Brasil atrás de emprego e bons salários. Segundo a matéria da folha, os salários pagos aqui são condizentes com os que são pagos na Europa. Nada mal para um país "pobre", não?
A ironia dessa questão reside no fato de que esse mesmo povo português europeu rico, há pouco mais de um ano, organizava movimentos para expulsar os brasileiros de lá. Segundo pesquisas publicadas no Clarin da Argentina, por exemplo, Portugal era um dos países mais xenofóbicos da Europa e os brasileiros o grupo que mais sofria xenofobia em Portugal.
Pura burrice.
Primeiro, os imigrantes são necessários para o crescimento europeu. Qualquer um que tem o mínimo conhecimento de demografia sabe que a população européia está por demais envelhecida e a Previdência Social é um calcanhar de aquiles na maioria dos países. Isso só se resolve com mão-de-obra jovem que trabalhe e contribua para a aposentadoria deles.
Segundo, já disse aqui várias vezes, a história não é retilínea, ao contrário, é cheia de idas e vindas. Ontem eles estavam melhores e nós que precisávamos ir pra lá. Hoje é o contrário. Nós é que somos a economia pujante e em crescimento. Aqui não há recessão, o país tem enormes reservas e as perspectivas futuras são ótimas.
Nós não podemos ser burros como os europeus têm sido e expulsar os imigrantes. Precisamos de mão-de-obra qualificada e não podemos incorrer na mesma burrice deles, embora não sejamos o melhor exemplo do mundo de país sem xenofobia. Aliás, aqui a xenofobia é pior do que é na Europa por que é realizada contra nós próprios.
Isso mesmo. Brasileiro tem xenofobia contra brasileiro. Basta nos lembrarmos daquelas frases absurdas e infelizes que muitos "sudestinos", irados com a vitória de Dilma, publicaram no twitter contra os nordestinos. O irônico de tudo é que hoje (13/04/2011) a Presidente está na China defendendo os interesses de nós todos brasileiros e têm sido muito bem avaliada em todas as regiões.
Irônico também é o fato de que tem sido o Nordeste a puxar o crescimento nacional nos últimos anos. Há muito tempo a região cresce além das taxas nacionais. Desde 2004 o consumo das famílias nordestinas sustentam as indústrias paulistas e preservam os empregos por lá.
Ser xenófobo é, antes de tudo, ser burro.
A xenofobia não encontra amparo nos fatos, mas no preconceito desmedido e injustificado.
Pensemos nisso.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Quem paga a conta de Itaipu?

EDUARDO SCIARRA

Não há motivos financeiros nem razões de Estado ou de segurança que justifiquem um presente de mais de R$ 5 bilhões aos paraguaios


Nós não podemos votar o Tratado de Itaipu apenas porque a presidente Dilma quer ser bem recebida no Paraguai. Ou porque ela não quer ferir a suscetibilidade de Lula, mantendo sua errática política externa, que esconde o desejo mitômano de ser -Lula, não o Brasil- líder regional e protagonista global.
A Usina de Itaipu é monumento não só à excelência da engenharia brasileira, mas também à sabedoria dos diplomatas e à vontade madura de integração dos nossos dois povos. Especialistas em energia e juristas renomados não se cansam de elogiar o tratado original.
Só foi possível financiar obra tão gigantesca (o custo total da construção é de US$ 27 bilhões) graças ao megafinanciamento assumido inteiramente pelo Brasil.
Ao Paraguai coube, pelo tratado, a venda compulsória da energia não consumida, numa operação sob a responsabilidade das respectivas estatais elétricas: a Ande e a Eletrobras. Em última instância, quem paga por isso são os consumidores brasileiros das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Pelos cálculos do Instituto Acende Brasil, no acumulado até março de 2010, o Paraguai já embolsou o equivalente a US$ 4,9 bilhões (royalties, rendimentos de capital e venda de energia propriamente dita). Mais: depois de 2023 (meio século da assinatura do tratado), com a quitação do financiamento, o Paraguai será proprietário de metade de um ativo avaliado em US$ 60 bilhões, cuja vida útil, estimam os geólogos, será superior a 200 anos.
A revisão ora proposta implica o aumento dos pagamentos anuais feitos pelo Brasil ao Paraguai de US$ 120 milhões para US$ 360 milhões. Como o tratado vigora até 2023, serão 13 anos com pagamento onerado em US$ 240 milhões ao ano, totalizando US$ 3,12 bilhões, ou mais de R$ 5 bilhões.
A não ser pela megalomania e pelo protagonismo do ex-presidente Lula, não há justificativas econômico-financeiras e nem razões de Estado, de segurança nacional ou sequer de caridade cristã que expliquem um presente de mais de R$ 5 bilhões aos paraguaios.
Especialmente num momento em que a salgada conta da farra fiscal e da gastança do governo passado, executada pelo atual ministro da Fazenda, está sendo cobrada de todo o povo brasileiro, com cortes de R$ 50 bilhões no Orçamento, atingindo programas sociais, cancelando investimentos e aumentando impostos.
É bom lembrar também que, na recente votação do salário mínimo, o governo obrigou sua base parlamentar a rejeitar o valor de R$ 560, alegando falta de recursos.
O Brasil pode e deve, sim, contribuir para o desenvolvimento do Paraguai, até como forma de apoiar a consolidação da democracia naquele país, seja pelo financiamento de obras de infraestrutura, seja estimulando a pesquisa e o desenvolvimento, com a Embrapa, e tantas outras formas de cooperação. Mas isso não pode se dar à custa do contribuinte brasileiro, muito menos do desajuste de contas internas.
Os brasileiros esperam que o Congresso Nacional cuide primeiro do real interesse do seu povo, rejeitando a revisão desse tratado. Pela saúde econômica do nosso país e por saberem não ser justo que sejam obrigados a pagar ao Paraguai por algo que não devem.

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EDUARDO SCIARRA, deputado federal pelo DEM-PR, é vice-líder do partido na Câmara dos Deputados.
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Minha análise
Claro que não concordo com a totalidade do que está escrito, sobretudo quanto as críticas ao governo Lula, mas uma coisa é verdade: Os países da América do Sul, usando como desculpa o fato de, segundo eles, o Brasil ser um país imperialista, têm tomado atitudes contrárias aos interesses brasileiros. Assim foi na Bolívia e a questão do seu gás, no Equador com a expulsão da Odebrecht, no Paraguai e o caso de Itaipu e na Argentina com suas barreiras às importações de produtos brasileiros.
Como maior potência da região, temos de responder a esses desafios a altura e impor a nossa condição. Lógico, não por meio agressões bélicas, mas por dissuasão. Se os argentinos barram nossos produtos, barremos os deles; se os bolivianos não querem vender gás pra nós, procuremos novas fontes - aliás o pré-sal já resolveu isso pra nós; se os paraguaios querem cobrar mais por Itaipu, deixemos ver o que eles fazem se não pagarmos. Vão explodir a usina ou cortar os fios de alta tensão que mandam energia pro Brasil? Infelizmente a condição deles é de submissão. Não têm muita condição de negociar de igual para igual conosco neste quesito.

domingo, 3 de abril de 2011

Situação de fácil previsibilidade

Quando a tal zona de exclusão aérea começou a funcionar na Líbia, mesmo com as promessas de que não haveria invasão por terra e de que as tropas internacionais estavam lá só pra defender o povo líbio de Kadaffi, todos sabíamos que a situação facilmente poderia sair do controle. Pois bem, se não já saiu, tá muitíssimo próximo. Nisto digo: Em breve poderemos estar vendo algo muito assemelhado com o que está agora se passando no Iraque e no Afeganistão, ou seja, verdadeiros flagelos humanos, guerras sanguinolentas, caras e pouco eficientes. Motivo: Os ocidentais metidos a saberem de tudo, simplesmente não têm know-how para agirem no mundo árabe. Não me refiro a know-how bélico, mas social, político e cultural.
Aos nossos olhos todos os povos árabes são iguais, mas não são. Existem interrelações tribais, religiosas e culturais muito intricadas, às vezes de intelecção quase impossível para nós. Meter a mão naquele barril de pólvora é pedir para se queimar.
Um exemplo prático: Obama tem falado em armar os rebeldes contra Kadaffi. Esta ação se baseia na premissa de que o ditador líbio representa o mal incorrigível e os rebeldes o bem divino. Enganam-se todos redondamente. Apostam quanto que, tão logo estejam no poder, os rebeldes adotarão hábitos muito próximos aos de Kadaffi? É capaz de daqui há 10 ou 20 anos haver outra guerra para tirá-los do poder. Foi assim com o Talebã, por exemplo, e olhem no que deu.
Quem lê este blog sabe que eu sou um entusiasta das rebliões pró-democráticas nos países islâmicos e que jamais defenderia Kadaffi ou qualquer outro ditador, mas acredito que a posição da chamada "comunidade internacional" tem de ser a da não intromissão. Tirar um governo e botar outro no lugar não é garantia de estabilidade, democracia e paz, conjugadas, mas, ao contrário, pode significar mais ódio e sangue.
O que a ONU, a OTAN e a Comunidade Internacional têm de fazer é evitar um genocídio, só isso. Deixe que os líbios cuidam de sua situação política da forma como melhor lhes aprouver.
Para concluir direi a coisa mais óbvia do mundo, eu sei, mas não posso me furtar disso: Ninguém nos países ricos tá nem aí para os rebeldes, para Kadaffi ou paro povo líbio. Os europeus querem segurança energética (petróleo) e os EUA estabilidade na região pra continuar seu negócios (petróleo).
É isto.