quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O pífio debate eleitoral

Quem acompanha esse blog deve se lembrar de que eu dizia, às vésperas do início da campanha, estar ansioso pelo debate político-eleitoral que, supostamente, se travaria quando das eleições. Ocorre que eu imaginava estariam presentes os grandes temas. Nada, pura ilusão. Essa foi uma das eleições de debate mais carente de substância que eu já vi. Eu reputo isso ao PSDB e à campanha suja de Serra. Lamentável.
Passamos a maior parte do tempo discutindo projetos de canonizações de São Serra e Santa Dilma, ou seja, baboseira religiosa inútil. Um verdadeiro desserviço ao crescimento de nossa democracia. Reprovável. Religião se discute em casa, com a família, ou nas igrejas, com os irmãos e amigos. Em horário eleitoral, discute-se coisas que interessem à nação, sobretudo levando em consideração que o Estado é laico. Como já falei sobre isso em outro tópico, paro por aqui.
Para concluir, o episódio da bolinha de papel que lascou a cabeça de Serra, perdoem-me, foi incrivelmente cômico.

O STF acovardado

Soou-me minimamente patética a decisão do STF, ontem, sobre a lei do Ficha Limpa. Mais uma vez ficaram num irritante empate de 5 x 5, mas como uma decisão é necessária e urgente, teve de se fazer uma emenda. O maior responsável, pra mim, foi o Presidente, Cézar Peluso, que não teve coragem de dar o seu voto de minerva, pois havia se posicionado contrário à validade imediata da lei e de sua retroatividade. Isto posto, o Supremo, então, disse: É, já que eu não resolvi, vale a decisão do TSE.
Isso é pífio para uma Suprema Corte.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Retorno à Idade Média?

É com muita tristeza, até mesmo com irritação, que assisto ao retorno de velhos temas medievais, totalmente desimportantes para um país grande como o Brasil, retornarem ao centro do debate em uma eleição presidencial. A mim não importa se um Presidente é católico, protestante, satanista ou muçulmano. Tampouco se ele é contra ou a favor do aborto, do casamento gay e de temas afins. Eu quero saber de sua trajetória política, de sua visão de Estado, de seus planos para a educação de um país analfabeto como o nosso e de temas realmente relevantes. Ora, poupem-me.
Se um padre católico ou um pastor protestante querem fazer campanha contra ou a favor de um ou outro candidato, façam, mas sejam sinceros e debatam coisas válidas, úteis, não mentiras e projetos de retorno ao período mediavel.
Para concluir, quem legisla é o Congresso e só ele é capaz de descriminalizar o aborto e as drogas. Esse debate do atraso, se se achar que é válido, deve-se fazer nas discussões para a escolha de um deputado e não de um presidente.
Uma das maiores conquistas da humanidade foi a laicidade, divisão entre Igreja e Estado.

A sede por petróleo leva o Brasil a estender fronteira marítima

Le Monde

O Brasil se antecipou às Nações Unidas ao reafirmar seus direitos sobre uma zona marítima potencialmente rica em petróleo, e isso sem esperar o aval da organização internacional. Essa manifestação de independência se deu sob a discreta forma de um decreto publicado no dia 4 de setembro no “Diário Oficial”.
Segundo esse texto, a Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM) decidiu que “qualquer empresa ou nação que deseje explorar os recursos minerais da plataforma continental deverá pedir a autorização prévia do governo brasileiro”. Isso equivale a estender a fronteira marítima do Brasil até 350 milhas náuticas (648 km) de suas costas. Assim, o país acrescenta à sua zona econômica exclusiva – 3,5 milhões de quilômetros quadrados sobre uma extensão de 200 milhas náuticas (370 km) – uma superfície marítima de 960 mil quilômetros quadrados.
A convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, que data de 1982, abre a possibilidade para qualquer país, dez anos após ter ratificado esse texto, de reivindicar direitos até 350 milhas de suas costas, de acordo com a dimensão de sua plataforma continental. O Brasil ratificou a convenção em 1994 e apresentou seu pedido em 2004. Para justificar este último, ele enviou um mapa detalhado à Comissão dos Limites da Plataforma Continental (CLPC) das Nações Unidas.

Interesse estratégico
A CLPC levou vários anos para examinar esse pedido, antes de rejeitá-lo parcialmente e de pedir ao Brasil que o reiterasse, o que Brasília fez, sem mudar nada, em março de 2009. Um mês depois, a comissão da ONU aceitou 75% da reivindicação brasileira, para uma superfície de 712 mil quilômetros quadrados. Desde então, os 248 mil quilômetros quadrados recusados permaneciam sob disputa.
Então o Brasil decidiu colocar os pingos nos “is”. Essa impaciência corresponde a um interesse estratégico considerado vital: a necessidade de proteger das cobiças externas as imensas reservas de petróleo que as descobertas efetuadas há três anos ao largo de suas costas deixam imaginar, ou seja, 50 a 100 bilhões de barris provados até agora.
Essas jazidas em águas muito profundas – a mais de 7 mil metros e sob uma espessa crosta de sal de 2 mil metros, o que explica o nome em português “pré-sal” – poderiam fazer do Brasil, em 2030, o 4º maior produtor mundial de ouro negro. As jazidas do pré-sal descobertas se situam na zona econômica exclusiva, mas outras poderão ser descobertas um pouco mais longe das costas, o que explica a iniciativa unilateral do Brasil.
Esta ocorreu – não foi um acaso - no mesmo dia em que a companhia petrolífera Petrobras, 40% da qual pertencem ao Estado federal, anunciava sua intenção de levantar até US$ 64 bilhões (R$ 110 bilhões), pela emissão de novas ações, para financiar os enormes investimentos necessários para a exploração das jazidas. Ao reafirmar sua soberania sobre a zona onde jaz seu tesouro petrolífero, o Brasil dá uma garantia extra a todos aqueles que se preparam para investir no pré-sal.

Rápida análise
Mudemos os livros de geografia, pois o Brasil já não é mais um país com 200 milhas de mar territorial. Segundo vimos, hoje temos soberania sobre 350 milhas. Fizemos isso unilateralmente. Coisa de gente grande. O pré-sal, já há muito se anunciava, irá chamar a atenção dos países mais ricos para a costa atlântica imediatamente vizinha ao nosso mar territorial. Forma de resolver isso? Corajosamente e caladinho, anexar tudo. Detalhe: até hoje os EUA ainda não reconheceram nem sequer as 200 milhas. Imaginem o que vão achar das 350...
Importante citar que essas coisas todas estão ocorrendo e o pré-sal ainda não entrou no debate eleitoral.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

PSDB e PT discutem papéis de FHC e Lula na eleição

Blog do Josias


Em debates subterrâneos, PSDB e PT avaliam o peso de Fernando Henrique Cardoso e de Lula na eleição presidencial de 2010. Um pedaço do tucanato passou a defender a efetiva participação de FHC na campanha de José Serra. Uma ala do petismo receia que, no segundo turno, a overdose de Lula na propaganda eleitoral pode ser prejudicial a Dilma Rousseff.

No PSDB, o debate sobre a inconveniência de esconder FHC se escora num par de evidências.

Dois senadores tucanos eleitos no domingo (3) –Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) e Paulo Bauer (PSDB-SC)— ousaram exibir FHC em suas propagandas. Longe de prejudicar, afirmam os tucanos pró-resgate, a vinculação explícita com FHC teria contribuído para a eleição dos dois senadores.

O exemplo de Aloysio é mencionado com especial ênfase. Depois de frequentar as pesquisas com cara de azarão, o novo senador saiu das urnas como primeiro.

Obteve mais votos do que Marta Suplicy (PT-SP), a segunda colocada. E converteu o pagodeiro Netinho (PCdoB) de favorito em ex-futuro-quase-senador.

Por ora, a pregação não faz eco no comando de marketing da campanha tucana.

Alega-se que FHC pode até ajudar em âmbito estadual. Mas sua imagem, indicam as pesquisas internas, surtiria efeitos tóxicos em âmbito nacional.

No PT, o pedaço da legenda que se anima a pôr em dúvida o papel de Lula argumenta que, no segundo turno, deve-se expor mais a candidata do que o patrono dela.

Por quê? Serra vai reforçar a tática de instilar no eleitorado dúvidas quanto à capacidade de Dilma de governar o país e lidar com o PT.

A superdosagem de Lula, em vez de ajudar, terminaria por reforçar a pregação do inimigo. Daí a tese de que o ideal seria enfatizar as qualidades de Dilma.

Tomada pela entrevista que concedeu nesta segunda (4), Dilma mantém a disposição de esticar a corda do plebiscito, contrapondo Lula a FHC.

Em diálogos privados que manteve com ministros, Lula não soou como se desejasse refrear seus movimentos de cabo eleitoral.

Ao contrário, Lula aguarda com uma ponta de ansiedade pelo reinício da programação de campanha.

Deve regular suas viagens pelo mapa da eleição, priorizando os Estados onde o desempenho de Dilma revelou-se mais débil.

Assim, a aparição de FHC e a modulação da imagem de Lula dependem do convencimento dos comandos das duas campanhas e da disposição da dupla.

Se Lula quiser aparecer na TV e no rádio, não haverá vozes petistas capazes de detê-lo.

Quanto a FHC, como que rendido às evidências, prefere avocar para si a decisão que o condenou ao armário desde a sucessão de 2002:

"Eu decidi ser o oposto do presidente Lula. Ele está o dia inteiro querendo esmagar o adversário. Eu tenho minha torcida e não fico tentando chutar em gol", disse.

“Desde que eu deixei a Presidência eu não participo diretamente das campanhas... Acho que não é próprio".

Meia-verdade. Acionado, não hesitou em levar o rosto às campanhas dos senadores Aloysio Nunes Paulo Bauer.

Gravou mensagem também para Raul Jungmann (PPS), candidato derrotado a uma cadeira de senador por Pernambuco.

Rápidas impressões sobre o resultado das eleições

No Rio Grande do Norte
A boa e velha política nojenta daqui é imbatível. Todos os medalhões de sobrenome tradicional tiveram espaço garantido. Para federal, só uma mudança: Paulo Wagner, o tiririca potiguar, agora é nosso representante na câmara. Depois não reclamemos. Para governo estadual, Rosalba, ex-prefeita de Mossoró e Senadora, foi eleita já no primeiro turno. A cidade de Mossoró parou ontem numa carreata descendo o Alto do São Manoel. Sua vitória foi acachapante.

Na Paraíba
Fiquei feliz com o resultado eleitoral de Ricardo Coutinho, do PSB. As pesquisas davam vitória do desqualificado José Maranhão, do PMDB, já no primeiro turno. O resultado foi bastante diferente, bastante apertado. Se eu fosse paraibano, votaria em Coutinho.

Presidenciais
O segundo turno foi resultado do crescimento de Marina e, se houvesse mais duas semanas de campanha, acredito que ela teria ficado em segundo lugar. O fato é que agora a candidata do PV é a pessoa mais assediada do país, justificadamente, embora eu ouse ter uma opinião diferente. Segundo penso, os votos de Marina não são um capital político próprio dela, mas uma expressão do descontentamento com Dilma, fruto dos escândalos alardeados aos quatro ventos. Os jovens e as classes mais escoladas migraram fortemente para o PV. Num segundo turno entre Dilma e Serra é natural que esses votos voltem para Dilma. Não creio que Marina tenha a chave do segundo turno, conforme publicou o Le Monde, mas reconheço ser fundamental o seu apoio.
Para concluir, se Marina, como ela vem dizendo, realmente, conseguir um apoio em bases programáticas e não em troca de fatias da administração, terá se constatado um avanço para a nossa política.