terça-feira, 2 de março de 2010

Uma reflexão sobre a fome no Brasil

“Eles falam em crescimento e não fortalecem o povo/Num país sem dente é feliz quem come um ovo”. (É quente – Charlie Brown Jr.)

Por: Lucas Almeida de Lima

Ah, o Brasil. Brasil de belas praias, belas paisagens, numerosos pontos turísticos. Brasil de uma riqueza natural singular. Riqueza que pertence aos 180 milhões de brasileiros. É. Brasil de 180 milhões de cidadãos. 180 milhões distribuídos em, aproximadamente, 8,5 milhões Km² de território nacional.
Mas o ponto central de nossa discussão, a qual se revelará altamente relevante, não é as belezas nacionais, tampouco o senso demográfico brasileiro, mas sim, a alimentação desses 180 milhões de habitantes que o Brasil possui. Comecemos com um bom ditado popular que diz: "Saco vazio não pára em pé".
O Brasil produz, por ano, 626.341.780 Toneladas de alimentos. Um número absurdamente impressionante. Se dividirmos esse valor monstruoso pelo número de habitantes, veremos que daria 9,5 quilos de comida para cada cidadão por dia. Porém, eis a pergunta: tendo em vista os valores expostos acima, teria como dizer que alguém passa fome no Brasil? Bem, se você analisar esses dados de uma forma puramente matemática, sua resposta certamente seria não. Todavia, a última palavra da interrogação deve ser levada em primordial consideração: Brasil. Ah, o Brasil. País de um povo alegre, receptivo. País do pentacampeonato de futebol, das mulatas, do carnaval e das contradições. País onde 14 milhões de pessoas passam fome. Acredite. Mais um número impressionante para a nossa lista: dos, já tão falados, 180 milhões de habitantes, 14 milhões passam fome. E não estamos falando, aqui, de pessoas que não têm condições de obter uma alimentação de qualidade razoável ou, ao menos, de baixa qualidade. Antes assim fosse. Mas, não. Estamos falando de 14 milhões de pessoas que não têm o que comer.
Já sei: você está se perguntando como um país pode produzir quase 627 milhões de toneladas de alimentos e ter 14 milhões de pessoas passando fome. Mas essa questão depende de alguns fatores, entre eles: o desemprego, inacessibilidade aos alimentos, ignorância no manejo do solo e também o fato de que nem tudo que é produzido é direcionado para a alimentação humana. Por exemplo, da cana-de-açúcar é produzido o etanol, e da soja e do milho deriva boa parte da matéria-prima usada pra a ração animal.
No Brasil, a questão da fome vem sendo arrastada durante séculos. As pessoas mais afetadas, historicamente, são aquelas oriundas de regiões distantes dos grandes centros. Claro, não apenas nesses lugares, mas com predominância ali. Muito se falou sobre o assunto, muito foi discutido para solucionar o problema, mas a medida de maior expressão tomada pelos nossos governantes iniciou-se a partir do primeiro mandato do atual presidente Luís Inácio Lula da Silva, em 2003, com o lançamento do projeto Fome Zero, que visava dar acesso aos alimentos, fortalecer a agricultura familiar, gerar ocupação rentável e, assim, melhorar a qualidade de vida dos mais desfavorecidos.
O Programa Fome Zero, do governo federal, visava prestar auxílio às pessoas de baixíssima renda que não têm condições de possuir uma alimentação adequada e nutricionalmente correta. O, assim considerado, carro-chefe do programa é o Bolsa Família, que faz uma transferência de renda a famílias em situação de pobreza que tenham renda per capita de até R$ 120,00 mensais. Essa renda extra ajuda as famílias a conseguirem melhores condições de vida, melhorando sua alimentação e nutrição, e a superarem as desigualdades econômica e social.
Mas as pessoas não podem se tornar dependentes dessa ajuda governamental. O dinheiro é só um auxilio para que as famílias possam melhorar suas situações e conquistarem uma vida dignamente cidadã. E é por isso que o Fome Zero também incentiva, valoriza e divulga a agricultura familiar como a atividade econômica fundamental para o desenvolvimento socioeconômico sustentável no meio rural. Esta face do Programa busca o desenvolvimento da agricultura familiar promovendo a geração de renda no campo e o aumento da produção de alimentos para o consumo.
Esse programa social ajuda as pessoas a plantarem e venderem o que produziram. Esse produto pode ter vários destinos: eles são comprados dos agricultores e distribuídos em escolas, asilos, orfanatos etc. Notem que a venda desses produtos já é mais uma renda extra para a família. Mais uma ajuda na missão de tirar nosso povo da miséria.
Certo. Mas e a era digital na qual vivemos hoje? Essas pessoas auxiliadas pelo governo viverão apenas nos campos em detrimento de tudo mais que há? Não. Não se depender do governo, porque o próprio, dentro do Fome Zero, também desenvolve ações de qualificação profissional da população de baixa renda, numa tentativa de diminuir o desemprego. Hoje, o desemprego é causado muito mais pela má qualificação da mão-de-obra do que pela falta de oferta no mercado de trabalho. Mas uma vez o país das contradições dá as caras: há muita oferta de emprego, há muitas pessoas para trabalhar e há muito desemprego porque os candidatos simplesmente não servem, não são aptos a desempenhar as funções de determinados ramos na indústria, são mal qualificados. Logo, podemos chegar a algumas conclusões: para acabar com a fome no Brasil é preciso empregar aqueles que estão sem ocupação. Para ocupá-los, é necessário primeiramente qualificá-los. Uma vez estando trabalhando, recebendo um salário digno, o cidadão não precisará mais da ajuda social do governo, podendo "seguir com suas próprias pernas" e passar, então, a ajudar a economia do país, pois agora ele já poderá consumir mais ativamente. E, assim, o governo terá cumprido seu papel como deveria, acabando com a fome e a acentuada desigualdade social, oferecendo vida digna aos cidadãos desde brasileiros.
Bonito, não é mesmo? Lendo assim, até parece fácil. E, de certa forma, talvez até seja simples, de fato. Mas não podemos esquecer de qual país estamos falando. Nem tudo é tão simples quanto parece nessa terra de batalhadores. Tudo depende de vários fatores, várias medidas. Talvez até seja como diz certo professor meu: “O Brasil tem a pobreza na alma.” As coisas fáceis, ou ao menos possíveis, no Brasil tornam-se difícil, burocráticas. Não que o problema da fome jamais será resolvido no Brasil. Não é isso. Mas é que às vezes nossa esperança até se esgota de tanto ver as oportunidades que poderiam “ir pra frente” e acabam retrocedendo por motivos reles. Mas tudo bem, o que vale é que o Brasil está indo pelo caminho certo no combate à fome e a desigualdade social. E se perguntarem se algum dia não haverá mais fome no Brasil, pare para refletir, pense nas belas paisagens naturais que há neste país, pense nas mulatas, na alegria de nosso povo. Pense também nos 14 milhões de famintos e nos milhares de desempregados. Na nossa mega produção alimentícia. E responda, como qualquer brasileiro responderia: “Sou brasileiro e não desisto nunca”.
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Lucas Almeida foi meu aluno em 2009, no IFRN. Postei esse texto por que, além de muito bom, quero que os meus atuais alunos do IFPB tenham uma exata noção de como devem ser as respostas dos questionamentos que trabalharemos em sala.

2 comentários:

  1. Pois bem, ainda não somos somente praia e carnaval como enseja nossa história e nossa imagem internacional, nossos problemas são muito bem obscurecidos lá fora, mas são muito latentes em nosso cotidiano. Todavia, já saímos de uma realidade onde a fome e amiséria eram analisados apenas estatisticamente, para uma realidade na qual os problemas são levados à mesa (já que os alimentos ainda não o são). Não convém a mim fazer a crítica mais conducente com a realidade dos projetos de Lula, mas me sinto feliz por ser contemporâneo das mudanças iniciadas por eles, pois antes sequer tinhamos o que melhorar.

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  2. poís é além das pesoas gastar seu dinheiro de forma errada, ainda assim dizem que o gorverno ñ ajuda
    vamos colaborar com quem nessesita e o governo trabaçhar mais e ajudar os pobres

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