quinta-feira, 18 de março de 2010

O valor da educação

Folha de S Paulo
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País precisa pagar mais e atrair talentos para o ensino público, mas seis Estados descumprem piso salarial do professor
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A EDUCAÇÃO básica já ocupa lugar de destaque na agenda nacional. Embora tardia, a prioridade que vem sendo conferida à formação e à qualificação dos 48 milhões de brasileiros em idade escolar se reflete no aumento paulatino da parcela do PIB investida no setor. De 3,9% em 2000, alcançou-se a marca de 4,7% em 2008, ou R$ 140 bilhões, já perto de cumprir a meta simbólica de 5% neste ano.
Não basta, contudo, aumentar as verbas da educação para aplicar-lhe essa espécie de choque de compromisso com a qualidade que se faz necessário. É crucial trabalhar com metas mensuráveis, como as cinco lançadas pelo Movimento Todos pela Educação, com prazo para 2022, e endossadas por esta Folha em 2007: todas as crianças e jovens de 4 a 17 anos na escola; toda criança plenamente alfabetizada até os 8 anos; todo aluno com aprendizado adequado à sua série; todo jovem com o ensino médio concluído até os 19 anos; e investimento em educação ampliado e bem gerido.
Por ora, melhorou mais a qualidade das estatísticas do que os indicadores que delas derivam. O país possui hoje 91% de crianças e jovens na escola, uma taxa razoável. Menos de um terço, porém, demonstra ter aprendido o conteúdo esperado na série em que se encontra.
A situação alcança o limiar da emergência no caso da matemática ao final do ensino médio: só 9,8% dos estudantes sabem o que deveriam saber. A formação secundária, mínimo esperado para as necessidades técnicas do desenvolvimento nacional, só é completada por 45% dos jovens de 19 anos (idade correta para concluir o ensino médio). E não se criou, até o presente, instrumento confiável para aferir a alfabetização efetiva até 8 anos.
Além disso, a intenção de dotar todos os professores de diploma universitário está longe de realizar-se. Os percentuais se aproximam do satisfatório apenas no ensino médio (95%) e fundamental 2 (85%). No fundamental 1, há meros 58%.
Países que deram um salto na educação, como Coreia do Sul, assumiram a prioridade de recrutar docentes entre os melhores profissionais formados pelas universidades. Pode-se reformar de tudo no ensino, mas ele jamais será de qualidade sem bons professores. E estes não serão atraídos por salários medíocres.
Lei sancionada em 2008 fixou um piso salarial nacional para docentes, hoje no valor de R$ 1.024,67 (inferior até à renda média do Brasil, R$ 1.117,95). No entanto, seis Estados (GO, TO, RO, CE, PE e RS) ainda pagam salários aquém disso. Sobre as escolas municipais não há dados, mas se presume que a situação seja ainda mais grave.
A educação brasileira não sairá do buraco em que se encontra enquanto a sociedade e os governantes por ela eleitos não se convencerem de que ser professor não é sacerdócio, mas profissão absolutamente estratégica para o desenvolvimento do país.
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Minha análise
Eu sou professor há quase nove anos, desde junho de 2001. Nesse tempo ensinei em todas as grandes escolas particulares de Mossoró, na rede municipal e, durante infelizes seis meses, na rede estadual. Já ensinei na Universidade Estadual do RN, no IFRN e hoje sou professor do IFPB, esses dois últimos integrantes da rede federal de educação tecnológica. Logo, acredito que minha experiência, embora curta se comparada com outros colegas que já lecionam há 15-20 anos, é suficiente para eu poder tecer alguns comentários sobre o tema da educação e vou logo começar dizendo que esta nunca foi, nestes últimos 500 anos, uma verdadeira prioridade no Brasil, infelizmente. Se considerarmos, inclusive, os investimentos particulares nesta área, veremos que estão bem aquém dos níveis de outros países comparáveis ao Brasil.
Não vou nem me ocupar em citar exemplos de países que foram bem sucedidos com o investimento em educação - praticamente todos os ricos de hoje -, mas vou analisar especificamente o nosso caso. Aqui no Brasil, parece-me, às vezes cultua-se o atraso e a ignorância. Estudar aqui é sinal de doença, alguns dizem que leva à loucura. Já imaginou que grande ignorância? Seria para rir se não fosse para chorar. Falta-nos muito para darmos o salto qualitativo de que necessitamos. Quem lê esse blog sabe que eu sou entusiasta da idéia de Brasil grande e desenvolvido, mas tenho mais do que plena consciência de que, com o nível de ignorância que está presente em nossas ruas, é difícil de conseguirmos isso.
Em poucas palavras, para tentar concluir, se quisermos melhorar a educação é preciso melhorarmos os professores. Quando fui professor do Estado o meu contracheque era de R$ 750,00. Revoltante! Como querer um bom profissional com um salário pífio desses? Conheci colegas que trabalhavam os três expedientes e já há uns 10 anos não liam uma livro, nem se sentavam para tentar escrever algo, produzir algum conhecimento científico, preparar aulas ou tentar se reciclarem de alguma forma. Aliás, pra quê fazer esforço se um professor com doutorado na rede estadual, tanto do RN, quanto da PB, ganha cerca de R$ 1.400,00? E isso se tiver a sorte de ter o seu título reconhecido. Durante os quase dois anos em que trabalhei na rede municipal de Mossoró, um município que arrecada mais de um milhão de reais por dia, não tive o acréscimo de míseros R$ 100,00 por mês que eu tinha direito por ter especialização. Se eu quisesse receber teria que entrar com mandado de segurança e esperar o tempo do mundo todo para ter algum proveito. Por isso que ainda há professores que nem graduados são ainda. Por isso que em algumas áreas há déficit de profissionais e por isso, também, que muitos professores bons e competentes buscam outras alternativas profissionais fora da educação. Não basta veicular propagandas bonitas conclamando os jovens a serem professores, é preciso melhorar as condições salariais e de trabalho. E sim, claro, SALARIAIS primeiro. Ser professor é uma profissão como outra qualquer, como diz o texto da Folha, não um sacerdócio. Aliás, nem vocação religiosa eu tenho.
Com este quadro, não se seguirá em frente na melhoria de que necessitamos. Lamentável.

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