terça-feira, 30 de março de 2010

A Vergonha

Luiz Fernando Verissimo
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Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço. A décima (está indo longe) edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.

Dizem que Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB 10 é a pura e suprema banalização do sexo. Impossível assistir ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros... todos na mesma casa, a casa dos "heróis", como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterosexuais. O BBB 10 é a realidade em busca do IBOPE.

Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB 10. Ele prometeu um "zoológico humano divertido". Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.

Se entendi corretamente as apresentações, são 15 os "animais" do "zoológico": o judeu tarado, o gay afeminado, a dentista gostosa, o negro com suingue, a nerd tímida, a gostosa com bundão, a "não sou piranha mas não sou santa", o modelo Mr. Maringá, a lésbica convicta, a DJ intelectual, o carioca marrento, o maquiador drag-queen e a PM que gosta de apanhar (essa é para acabar!!!).

Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo. Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.

Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis? São esses nossos exemplos de heróis?

Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores), carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor e quase sempre são mal remunerados..

Heróis são milhares de brasileiros que sequer tem um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir, e conseguem sobreviver a isso todo santo dia.

Heróis são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna.

Heróis são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, ONGs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína Zilda Arns).

Heróis são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo.

O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral.
E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó!!!

Veja o que está por de tra$$$$$$$$$$$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.

Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros?

(Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores )

Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores.

Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, ir ao cinema..., estudar... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... , telefonar para um amigo... , visitar os avós... , pescar..., brincar com as crianças... , namorar... ou simplesmente dormir. Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construído nossa sociedade.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Sobre o blog

Visitantes
Embora eu seja de Mossoró e hoje more em João Pessoa, a maior parte dos leitores, disparada, na ordem de 50%, segundo o Google analytics, é de Natal. Isso muito me enaltece, principalmente por que nunca divulguei este espaço pra ninguém da capital e, mesmo assim, houve grande crescimento do número de leitores natalenses. Muito obrigado pela visitação constante e mantenham-se aqui presentes, o debate só tende a se enriquecer.
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Visual
Não sei mexer com linguagem HTML, pois não tenho maiores conhecimentos técnicos de informática. Por isso o visual do blog é simples e do tipo padrão dos que o blogspot disponibiliza. Se algum leitor conhecedor dessa área quiser se dispor a criar um novo lay out (é assim que se escreve?), sinta-se a vontade, serei muito grato. No entanto, julgo não ser a aparência, mas o conteúdo, o maior atrativo deste blog.
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Constância das publicações
Nem sempre tenho disponibilidade de atualizá-lo constantemente. É tanto que já há algumas semanas não postava nada, embora hoje tenha criado três novos posts de uma só vez.
Importante dizer que jamais deixarei de postar aqui, mesmo que, às vezes, o tempo e as atribuições não permitam uma maior constância.

O que eu penso sobre...

Royalties do Pré-sal
O petróleo é da União e suas benesses têm de ser compartilhadas por todos os estados e municípios, no entanto, defendo a mudança nas regras daqui pra frente, sem retroagir para os contratos que já estão em vigência. O choro do governador do Rio foi ridículo, desprezível. Não é assim que se debate.
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Taxa SELIC
Ontem, 17/03, o Banco Central manteve a taxa em 8,75% ao ano. Segundo diz o mercado, a tendência é de alta por que o BC tá preocupado com as pressões inflacionárias. Eu quereria a manutenção da taxa nesses níveis, senão o seu decréscimo. Isto por que uma taxa menor fomenta o crescimento econômico e o Brasil precisa de diminuir a pobreza e de crescer mais. No entanto, segundo os da área, é necessário uma elevação da taxa para que a inflação mantenha-se dentro da meta. Aguardemos.
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Dilma Roussef
Como todos sabem, sou eleitor de Dilma. Ontem (17/03) o Ibope divulgou nova pesquisa em que ela aparece com uma distância de apenas 5 pontos percentuais de José Serra. O crescimento de Dilma nas últimas pesquisas darão combustível à sua campanha. Acredito que até o início do horário gratuito ela já estará a frente de Serra.
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Terremoto no Chile
O Chile é mesmo um país de dar inveja, sobretudo para nós aqui da América do Sul, pois tem mostrado grande organização para poder lidar com os impactos de tão devastador terremoto. Se nós compararmos os eventos do Haiti com os do Chile, ficará mais do que claro a diferença, ainda mais se nos dermos conta de que o país andino tem um fundo soberano de mais de 30 bilhões de dólares só para esse tipo de emergência.
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Lula no Oriente Médio
A imprensa nacional dá uma cobertura muito diferente da internacional. Aqui no Brasil essa viagem beira ao ridículo por que o Presidente tem se oferecido para ser mediador e nós não temos nada a ver com nada que acontece por aqueles lados. Lá fora, ao contrário, todos enaltecem a maior participação do Brasil no contexto internacional e muitos tem dito que nós poderemos sim ser mediadores neste e em outros conflitos. O Brasi é um ator importante, quer queiramos, quer não.

O valor da educação

Folha de S Paulo
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País precisa pagar mais e atrair talentos para o ensino público, mas seis Estados descumprem piso salarial do professor
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A EDUCAÇÃO básica já ocupa lugar de destaque na agenda nacional. Embora tardia, a prioridade que vem sendo conferida à formação e à qualificação dos 48 milhões de brasileiros em idade escolar se reflete no aumento paulatino da parcela do PIB investida no setor. De 3,9% em 2000, alcançou-se a marca de 4,7% em 2008, ou R$ 140 bilhões, já perto de cumprir a meta simbólica de 5% neste ano.
Não basta, contudo, aumentar as verbas da educação para aplicar-lhe essa espécie de choque de compromisso com a qualidade que se faz necessário. É crucial trabalhar com metas mensuráveis, como as cinco lançadas pelo Movimento Todos pela Educação, com prazo para 2022, e endossadas por esta Folha em 2007: todas as crianças e jovens de 4 a 17 anos na escola; toda criança plenamente alfabetizada até os 8 anos; todo aluno com aprendizado adequado à sua série; todo jovem com o ensino médio concluído até os 19 anos; e investimento em educação ampliado e bem gerido.
Por ora, melhorou mais a qualidade das estatísticas do que os indicadores que delas derivam. O país possui hoje 91% de crianças e jovens na escola, uma taxa razoável. Menos de um terço, porém, demonstra ter aprendido o conteúdo esperado na série em que se encontra.
A situação alcança o limiar da emergência no caso da matemática ao final do ensino médio: só 9,8% dos estudantes sabem o que deveriam saber. A formação secundária, mínimo esperado para as necessidades técnicas do desenvolvimento nacional, só é completada por 45% dos jovens de 19 anos (idade correta para concluir o ensino médio). E não se criou, até o presente, instrumento confiável para aferir a alfabetização efetiva até 8 anos.
Além disso, a intenção de dotar todos os professores de diploma universitário está longe de realizar-se. Os percentuais se aproximam do satisfatório apenas no ensino médio (95%) e fundamental 2 (85%). No fundamental 1, há meros 58%.
Países que deram um salto na educação, como Coreia do Sul, assumiram a prioridade de recrutar docentes entre os melhores profissionais formados pelas universidades. Pode-se reformar de tudo no ensino, mas ele jamais será de qualidade sem bons professores. E estes não serão atraídos por salários medíocres.
Lei sancionada em 2008 fixou um piso salarial nacional para docentes, hoje no valor de R$ 1.024,67 (inferior até à renda média do Brasil, R$ 1.117,95). No entanto, seis Estados (GO, TO, RO, CE, PE e RS) ainda pagam salários aquém disso. Sobre as escolas municipais não há dados, mas se presume que a situação seja ainda mais grave.
A educação brasileira não sairá do buraco em que se encontra enquanto a sociedade e os governantes por ela eleitos não se convencerem de que ser professor não é sacerdócio, mas profissão absolutamente estratégica para o desenvolvimento do país.
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Minha análise
Eu sou professor há quase nove anos, desde junho de 2001. Nesse tempo ensinei em todas as grandes escolas particulares de Mossoró, na rede municipal e, durante infelizes seis meses, na rede estadual. Já ensinei na Universidade Estadual do RN, no IFRN e hoje sou professor do IFPB, esses dois últimos integrantes da rede federal de educação tecnológica. Logo, acredito que minha experiência, embora curta se comparada com outros colegas que já lecionam há 15-20 anos, é suficiente para eu poder tecer alguns comentários sobre o tema da educação e vou logo começar dizendo que esta nunca foi, nestes últimos 500 anos, uma verdadeira prioridade no Brasil, infelizmente. Se considerarmos, inclusive, os investimentos particulares nesta área, veremos que estão bem aquém dos níveis de outros países comparáveis ao Brasil.
Não vou nem me ocupar em citar exemplos de países que foram bem sucedidos com o investimento em educação - praticamente todos os ricos de hoje -, mas vou analisar especificamente o nosso caso. Aqui no Brasil, parece-me, às vezes cultua-se o atraso e a ignorância. Estudar aqui é sinal de doença, alguns dizem que leva à loucura. Já imaginou que grande ignorância? Seria para rir se não fosse para chorar. Falta-nos muito para darmos o salto qualitativo de que necessitamos. Quem lê esse blog sabe que eu sou entusiasta da idéia de Brasil grande e desenvolvido, mas tenho mais do que plena consciência de que, com o nível de ignorância que está presente em nossas ruas, é difícil de conseguirmos isso.
Em poucas palavras, para tentar concluir, se quisermos melhorar a educação é preciso melhorarmos os professores. Quando fui professor do Estado o meu contracheque era de R$ 750,00. Revoltante! Como querer um bom profissional com um salário pífio desses? Conheci colegas que trabalhavam os três expedientes e já há uns 10 anos não liam uma livro, nem se sentavam para tentar escrever algo, produzir algum conhecimento científico, preparar aulas ou tentar se reciclarem de alguma forma. Aliás, pra quê fazer esforço se um professor com doutorado na rede estadual, tanto do RN, quanto da PB, ganha cerca de R$ 1.400,00? E isso se tiver a sorte de ter o seu título reconhecido. Durante os quase dois anos em que trabalhei na rede municipal de Mossoró, um município que arrecada mais de um milhão de reais por dia, não tive o acréscimo de míseros R$ 100,00 por mês que eu tinha direito por ter especialização. Se eu quisesse receber teria que entrar com mandado de segurança e esperar o tempo do mundo todo para ter algum proveito. Por isso que ainda há professores que nem graduados são ainda. Por isso que em algumas áreas há déficit de profissionais e por isso, também, que muitos professores bons e competentes buscam outras alternativas profissionais fora da educação. Não basta veicular propagandas bonitas conclamando os jovens a serem professores, é preciso melhorar as condições salariais e de trabalho. E sim, claro, SALARIAIS primeiro. Ser professor é uma profissão como outra qualquer, como diz o texto da Folha, não um sacerdócio. Aliás, nem vocação religiosa eu tenho.
Com este quadro, não se seguirá em frente na melhoria de que necessitamos. Lamentável.

quarta-feira, 3 de março de 2010

O significado da visita de Hillary ao Brasil

A viagem de Hillary parece refletir uma vontade de fazer do relacionamento com o Brasil uma prioridade da política externa dos EUA

por JULIA E. SWEIG
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EM SUA campanha para a Presidência, a senadora Hillary Rodham Clinton mal falou uma palavra sobre o Brasil. Como secretária de Estado, porém, ela reconhece o Brasil como o país mais poderoso da América do Sul e uma potência global em ascensão. A visita dela pode abrir caminho para a chegada do presidente Obama, mais tarde neste ano.
Embora ainda seja cedo para avaliar, a viagem de Clinton parece refletir uma vontade política de fazer do relacionamento com o Brasil uma prioridade estratégica da política externa dos Estados Unidos.

Clinton compreende que os Estados Unidos precisam se adaptar a um mundo multipolar, cooperando com potências como China, Rússia e Índia.
Mas em 2009 sua diplomacia com o Brasil foi prejudicada por disputas em torno de Honduras, bases militares na Colômbia, política interna e tensões ligadas ao Irã.
Tendo começado com tal atraso, a impressão que se tem é a de que a visita da secretária de Estado é permeada de urgência: os EUA estão perdendo terreno, à medida que a América Latina cria mais uma organização regional que os exclui. Além disso, a atenção do Brasil não vai tardar a voltar-se para dentro, quando sua campanha presidencial começar para valer.
Visitar o Brasil talvez seja o passo mais fácil. Os Estados Unidos têm pouco espaço para manter seu foco de atenção sobre o Brasil. A agenda interna de Obama vem sendo consumida pelas questões do desemprego, da reforma da saúde, da infraestrutura e da solvência fiscal. No campo externo, a principal atenção vai continuar sendo Afeganistão, Paquistão, Irã, Iraque e China.
É possível que falte incentivo ao Brasil para investir no relacionamento com os EUA tanto quanto a secretária Clinton possa desejar. Também focado em grande medida em questões internas, o Brasil sobreviveu à crise financeira global, vem construindo uma classe média crescente, reduzindo a pobreza e a desigualdade e consolidando a democracia. Hoje a corrupção, a criminalidade, a violência e as drogas são as questões prioritárias na agenda de seu eleitorado.
No plano internacional, os últimos sete anos impeliram o Brasil para o palco global. Os EUA representam apenas uma parte da agenda global brasileira: a ênfase dada pelo Brasil à multipolaridade e ao multilateralismo parte da premissa do declínio da influência norte-americana.
Em vista de sua insistência histórica a respeito da autonomia em relação às potências maiores, dificilmente se poderia esperar que o Brasil hoje subordinasse seus interesses aos dos Estados Unidos. Apesar disso, para os americanos, o etos brasileiro de autonomia em matéria de política externa às vezes aparenta ser uma tentativa deliberada de frustrar a diplomacia norte-americana. Tais percepções equivocadas correm o risco de funcionar como obstáculos no caminho das boas intenções.
Outro impedimento potencial é o fato de que os EUA ainda agem como potência imperial. Quando Hillary Clinton fala em "parceria", será que os brasileiros pensam que o que ela realmente quer dizer é deferência para com os interesses dos EUA?
Para tratar de problemas da agenda bilateral, regional e global, Clinton terá que penetrar o ceticismo de Brasília em relação ao compromisso de Washington com uma troca real de mão dupla. O Brasil terá que dar a ela o benefício da dúvida e expor com clareza o que quer dos Estados Unidos, aproveitando a visita e o que virá depois dela para avaliar bem o que a administração Obama quer do Brasil e o que será capaz de produzir.
Em termos bilaterais, a agenda será dominada por tarifas, impostos, comércio, incluindo até mesmo questões de gênero e raça. O Haiti virá à tona para ilustrar o talento dos dois países mais do que disputas em torno da Colômbia ou de Honduras. A secretária de Estado ouvirá a visão que o Brasil tem da região andina e sua visão para a integração sul-americana.
Talvez ela explique o ritmo glacial da política de Washington para Cuba. As discussões sobre mudanças climáticas e finanças globais vão avançar. Mas é o Irã que provavelmente ocupará o grosso do tempo.
Hoje em dia dura em relação a essa questão, a secretária Clinton insiste que as potências emergentes devem unir-se à pressão norte-americana e europeia exercida sobre o Irã, enquanto o governo Lula, depois do Iraque, vê as sanções como caminho que conduzirá ao uso de força militar.
Por mais que se possa repudiar o abraço público dado pelo presidente Lula em Ahmadinejad, o líder que nega a existência do Holocausto, o canal de comunicação que Brasília possui com uma Teerã cada vez mais caótica e imprevisível não deve ser desprezado ou visto simplesmente como tomada de posição antiamericana.
A visita de Clinton não vai resultar na intimidade de um "relacionamento especial" nem mesmo no abraço incômodo que Washington com frequência dá a seus melhores amigos na região. Mas, se a secretária deixar o país com uma apreciação da singularidade do Brasil -e os brasileiros apreciam plenamente a singularidade dos Estados Unidos-, é possível que comece a emergir uma forma de parceria que seja produtiva.

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JULIA E. SWEIG é membro sênior do Conselho de Relações Exteriores, sediado em Nova York, onde dirige o Programa América Latina e o Programa Global Brasil.

terça-feira, 2 de março de 2010

Uma reflexão sobre a fome no Brasil

“Eles falam em crescimento e não fortalecem o povo/Num país sem dente é feliz quem come um ovo”. (É quente – Charlie Brown Jr.)

Por: Lucas Almeida de Lima

Ah, o Brasil. Brasil de belas praias, belas paisagens, numerosos pontos turísticos. Brasil de uma riqueza natural singular. Riqueza que pertence aos 180 milhões de brasileiros. É. Brasil de 180 milhões de cidadãos. 180 milhões distribuídos em, aproximadamente, 8,5 milhões Km² de território nacional.
Mas o ponto central de nossa discussão, a qual se revelará altamente relevante, não é as belezas nacionais, tampouco o senso demográfico brasileiro, mas sim, a alimentação desses 180 milhões de habitantes que o Brasil possui. Comecemos com um bom ditado popular que diz: "Saco vazio não pára em pé".
O Brasil produz, por ano, 626.341.780 Toneladas de alimentos. Um número absurdamente impressionante. Se dividirmos esse valor monstruoso pelo número de habitantes, veremos que daria 9,5 quilos de comida para cada cidadão por dia. Porém, eis a pergunta: tendo em vista os valores expostos acima, teria como dizer que alguém passa fome no Brasil? Bem, se você analisar esses dados de uma forma puramente matemática, sua resposta certamente seria não. Todavia, a última palavra da interrogação deve ser levada em primordial consideração: Brasil. Ah, o Brasil. País de um povo alegre, receptivo. País do pentacampeonato de futebol, das mulatas, do carnaval e das contradições. País onde 14 milhões de pessoas passam fome. Acredite. Mais um número impressionante para a nossa lista: dos, já tão falados, 180 milhões de habitantes, 14 milhões passam fome. E não estamos falando, aqui, de pessoas que não têm condições de obter uma alimentação de qualidade razoável ou, ao menos, de baixa qualidade. Antes assim fosse. Mas, não. Estamos falando de 14 milhões de pessoas que não têm o que comer.
Já sei: você está se perguntando como um país pode produzir quase 627 milhões de toneladas de alimentos e ter 14 milhões de pessoas passando fome. Mas essa questão depende de alguns fatores, entre eles: o desemprego, inacessibilidade aos alimentos, ignorância no manejo do solo e também o fato de que nem tudo que é produzido é direcionado para a alimentação humana. Por exemplo, da cana-de-açúcar é produzido o etanol, e da soja e do milho deriva boa parte da matéria-prima usada pra a ração animal.
No Brasil, a questão da fome vem sendo arrastada durante séculos. As pessoas mais afetadas, historicamente, são aquelas oriundas de regiões distantes dos grandes centros. Claro, não apenas nesses lugares, mas com predominância ali. Muito se falou sobre o assunto, muito foi discutido para solucionar o problema, mas a medida de maior expressão tomada pelos nossos governantes iniciou-se a partir do primeiro mandato do atual presidente Luís Inácio Lula da Silva, em 2003, com o lançamento do projeto Fome Zero, que visava dar acesso aos alimentos, fortalecer a agricultura familiar, gerar ocupação rentável e, assim, melhorar a qualidade de vida dos mais desfavorecidos.
O Programa Fome Zero, do governo federal, visava prestar auxílio às pessoas de baixíssima renda que não têm condições de possuir uma alimentação adequada e nutricionalmente correta. O, assim considerado, carro-chefe do programa é o Bolsa Família, que faz uma transferência de renda a famílias em situação de pobreza que tenham renda per capita de até R$ 120,00 mensais. Essa renda extra ajuda as famílias a conseguirem melhores condições de vida, melhorando sua alimentação e nutrição, e a superarem as desigualdades econômica e social.
Mas as pessoas não podem se tornar dependentes dessa ajuda governamental. O dinheiro é só um auxilio para que as famílias possam melhorar suas situações e conquistarem uma vida dignamente cidadã. E é por isso que o Fome Zero também incentiva, valoriza e divulga a agricultura familiar como a atividade econômica fundamental para o desenvolvimento socioeconômico sustentável no meio rural. Esta face do Programa busca o desenvolvimento da agricultura familiar promovendo a geração de renda no campo e o aumento da produção de alimentos para o consumo.
Esse programa social ajuda as pessoas a plantarem e venderem o que produziram. Esse produto pode ter vários destinos: eles são comprados dos agricultores e distribuídos em escolas, asilos, orfanatos etc. Notem que a venda desses produtos já é mais uma renda extra para a família. Mais uma ajuda na missão de tirar nosso povo da miséria.
Certo. Mas e a era digital na qual vivemos hoje? Essas pessoas auxiliadas pelo governo viverão apenas nos campos em detrimento de tudo mais que há? Não. Não se depender do governo, porque o próprio, dentro do Fome Zero, também desenvolve ações de qualificação profissional da população de baixa renda, numa tentativa de diminuir o desemprego. Hoje, o desemprego é causado muito mais pela má qualificação da mão-de-obra do que pela falta de oferta no mercado de trabalho. Mas uma vez o país das contradições dá as caras: há muita oferta de emprego, há muitas pessoas para trabalhar e há muito desemprego porque os candidatos simplesmente não servem, não são aptos a desempenhar as funções de determinados ramos na indústria, são mal qualificados. Logo, podemos chegar a algumas conclusões: para acabar com a fome no Brasil é preciso empregar aqueles que estão sem ocupação. Para ocupá-los, é necessário primeiramente qualificá-los. Uma vez estando trabalhando, recebendo um salário digno, o cidadão não precisará mais da ajuda social do governo, podendo "seguir com suas próprias pernas" e passar, então, a ajudar a economia do país, pois agora ele já poderá consumir mais ativamente. E, assim, o governo terá cumprido seu papel como deveria, acabando com a fome e a acentuada desigualdade social, oferecendo vida digna aos cidadãos desde brasileiros.
Bonito, não é mesmo? Lendo assim, até parece fácil. E, de certa forma, talvez até seja simples, de fato. Mas não podemos esquecer de qual país estamos falando. Nem tudo é tão simples quanto parece nessa terra de batalhadores. Tudo depende de vários fatores, várias medidas. Talvez até seja como diz certo professor meu: “O Brasil tem a pobreza na alma.” As coisas fáceis, ou ao menos possíveis, no Brasil tornam-se difícil, burocráticas. Não que o problema da fome jamais será resolvido no Brasil. Não é isso. Mas é que às vezes nossa esperança até se esgota de tanto ver as oportunidades que poderiam “ir pra frente” e acabam retrocedendo por motivos reles. Mas tudo bem, o que vale é que o Brasil está indo pelo caminho certo no combate à fome e a desigualdade social. E se perguntarem se algum dia não haverá mais fome no Brasil, pare para refletir, pense nas belas paisagens naturais que há neste país, pense nas mulatas, na alegria de nosso povo. Pense também nos 14 milhões de famintos e nos milhares de desempregados. Na nossa mega produção alimentícia. E responda, como qualquer brasileiro responderia: “Sou brasileiro e não desisto nunca”.
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Lucas Almeida foi meu aluno em 2009, no IFRN. Postei esse texto por que, além de muito bom, quero que os meus atuais alunos do IFPB tenham uma exata noção de como devem ser as respostas dos questionamentos que trabalharemos em sala.