segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A União Europeia, o Brasil e o futuro

MIGUEL ÁNGEL MORATINOS
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O Brasil está jogando na 1ª divisão da política mundial. É, já, um interlocutor imprescindível nos diálogos que definem o futuro
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Brasil e União Europeia (UE) celebram hoje (15/02), em Madri, a reunião do diálogo político acordado na associação estratégica europeia-brasileira, que, pela primeira vez, tem o formato de nível ministerial. Nesse encontro, ambas as partes repassarão os principais assuntos da agenda regional e global.
O diálogo com o governo do Brasil interessa especialmente à UE. Os anos de bom governo têm dado ao Brasil estabilidade política e progresso econômico e social, e, com isso, a possibilidade de valorizar o seu imenso potencial. A gestão do presidente Lula da Silva é hoje amplamente reconhecida tanto no âmbito interno quanto na esfera internacional.
O Brasil está jogando na primeira divisão da política mundial. É, já, um interlocutor imprescindível nos assuntos e diálogos que estão definindo a construção e o futuro do mundo: aquecimento global, meio ambiente, eficiência energética, governo econômico mundial, reforma das instituições financeiras internacionais, segurança e combate da delinquência internacional ou reforma das Nações Unidas. A União Europeia é igualmente ativa nesses temas e, por isso, uma relação estreita com Brasil resulta conveniente para ambos.
Conscientes dessa realidade, a UE e o Brasil deram um passo adiante com a assinatura em 2007, durante a presidência portuguesa da UE, do Acordo de Associação Estratégica que se completou com o Plano de Ação Conjunta, no Rio de Janeiro, em 2008.
Os diálogos criados no amparo desses documentos estão tecendo uma espessa rede de intercâmbios, que nos levam na direção de relações verdadeiramente estratégicas com muitas coincidências e com diferenças superáveis, como acontece em todas as relações próximas intensas.
A nos unir, uma história compartilhada e o fato de que muitos brasileiros têm raízes europeias, com intensos laços familiares e afetivos, o que faz com que a Europa siga sendo uma referência cultural, educativa e social.
Paralelamente, Brasil assombra os europeus com sua fartura e criatividade. A UE é o primeiro parceiro comercial, o maior investidor no Brasil, o primeiro parceiro para os projetos de cooperação técnica e o lugar preferido pelos estudantes e cientistas brasileiros para ampliar os seus estudos.
A presidência espanhola se propõe a reforçar a dimensão latino-americana e caribenha da política externa da UE em uma etapa em que, após a entrada em vigor do Tratado de Lisboa, esta adquirirá maior peso e eficácia.
Nesse empenho, o crescimento e a consolidação do Brasil no cenário regional são um dado central. Uma aproximação birregional tem que considerar as dimensões e o papel que o Brasil está jogando como gerador de prosperidade econômica, estabilizador político regional e catalisador de uma institucionalização genuinamente latino-americana, via iniciativas como a União das Nações Sul-Americanas e a sua rede de conselhos, ou a incipiente Organização dos Estados da América Latina e do Caribe.
Com Brasil e outros países que fazem parte do Mercosul, estamos trabalhando decididamente para retomar, o mais breve possível, as negociações para que, num futuro próximo, possa ser assinado um acordo de associação entre a UE e o Mercosul, criando um espaço de interação de mais de 800 milhões de pessoas.
Um acordo com essas características é não só um acordo econômico mas também uma autêntica associação baseada em valores comuns, com componentes-chave de cooperação educativa, científica, cultural, política etc. Esse tipo de acordo tem a vocação de desenvolver integralmente todas as partes por meio de um benefício mútuo, e essa é uma oportunidade que não queremos nem podemos deixar de aproveitar.
Em um marco mais amplo, temos em maio, como projeto próximo, a Cúpula União Europeia-América Latina e Caribe, em Madri. O Brasil fará sentir sua voz e sua presença nessa reunião, e isso será a chave para o futuro da associação birregional Europa-América Latina e Caribe.
A relação Brasil-UE tem um grande valor em si mesma, porém, além disso, uma de suas grandes potencialidades é a capacidade de catalisar a aproximação entre as duas regiões e propiciar, com isso, uma maior e melhor integração dentro dos conjuntos regionais na América Latina.
Brasil tem, evidentemente, um enfoque essencial da sua ação externa na própria região ibero-americana. A UE tem também uma importante dimensão ibero-americana há muito tempo na sua política externa. A coincidência de um vetor tão relevante na projeção externa brasileira e europeia é um elemento bastante enriquecedor para as nossas duas regiões que, sem dúvida, potenciará mais, se é cabível, a presença de Brasil na UE e a da UE no Brasil.
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MIGUEL ÁNGEL MORATINOS é ministro de Assuntos Exteriores e Cooperação da Espanha e atual presidente da União Europeia.

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