quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Filme sobre Lula pode influenciar eleições presidenciais no Brasil

The New York Times


Nas cenas iniciais do novo filme brasileiro, um menino de 7 anos de idade caminha descalço pela terra seca, cheia de cactos, da cidade nordestina de Caetés. Ele vai pegar água de um rio que também serve às vacas, enquanto sua mãe espera na casa de um cômodo que divide com sete outros irmãos.

O menino, Luiz Inácio Lula da Silva, tornou-se presidente do Brasil e é um dos líderes mais populares do mundo, apesar de ter apenas a quarta série primária e de uma infância na pobreza.
O filme, "Lula, o filho do Brasil", que inaugurou nos cinemas brasileiros no Ano Novo, acompanha sua inspiradora trajetória, da infância de subsistência com uma mãe muito amorosa e dedicada e um pai alcoólatra e violento, até sua ascensão heróica como sindicalista que foi brevemente preso pela ditadura militar.


"O que Lula ofereceu aos brasileiros foi a liberdade de um complexo de inferioridade", disse Fabio Barreto, diretor do filme e defensor manifesto do presidente, que não se desculpa por envernizar pontos complicados de sua história. "Esta sociedade sempre foi tratada como inferior e preguiçosa. Ninguém veio aqui para nos dizer que nosso povo era forte."

O filme é interrompido antes da carreira política do Lula decolar. Mas isso não impediu políticos e outros críticos de questionarem as intenções dos produtores, que lançaram o filme em ano de eleição presidencial.

"Tudo neste filme é político. Você não está simplesmente fazendo um filme sobre um brasileiro comum", disse Amaury de Souza, analista político do Rio de Janeiro.

Apesar de Lula não poder concorrer à reeleição, ele espera transferir sua popularidade para a chefe da casa civil, escolhida por ele como sua sucessora, Dilma Rousseff. Além da ajuda que pode dar a Rousseff, cujo nome teve dificuldade em ser reconhecido, analistas políticos veem o filme como parte da repaginação do "mito do Lula", que poderia ajudá-lo a voltar ao poder em 2014.
Durante anos, o ex-líder de um sindicato dos metalúrgicos foi retratado como uma história de sucesso da classe trabalhadora industrial, um operário de uma fábrica de automóveis que foi eleito presidente em sua quarta tentativa. Como presidente, sua administração econômica estável, apelo populista e carisma tornaram-no um ícone nacional.

Contudo, um escândalo de compra de votos no Congresso prejudicou seu Partido dos Trabalhadores em 2005, provocando uma ameaça de impeachment do presidente. Lula, então, começou a se distanciar do partido e a enfatizar sua história como "o brasileiro pobre que vem de um barraco e se transforma em presidente do Brasil", disse Souza.

O filme levará esta narrativa possivelmente para milhões de espectadores. Se a reação do público neste cinema na última quinta-feira à noite servir de indicação, vão achar sua mensagem atraente.

"Ele mostra a determinação e a vontade de viver que muitos brasileiros têm, especialmente nas classes mais pobres. E mostra a perseverança de Lula. Não sabia que ele tinha sofrido tanto", disse Gulimar Ferreira, promotor público, enquanto deixava o cinema.

Lula também ficou comovido, chorando abertamente em uma apresentação especial em novembro último. "Eu comecei a chorar no início, quando vi a imagem da minha mãe", disse aos repórteres no dia seguinte.

Em uma conferência com a imprensa no mês passado, ele negou que o filme pudesse ajudar Rousseff, cujo personagem não apareceu no filme. "O filme, na realidade, é a história da minha mãe", disse ele. "Não é um filme sobre o Lula."

Os produtores dizem que não queriam fazer um filme político, e sim que esperavam capitalizar a popularidade de Lula, que tem índice de aprovação de 70% em seu último ano de mandato.

"Não acho que um filme tenha o poder" de afetar as eleições, disse Paula Barreto, produtora do filme. "Lula é Lula, e este filme é sobre sua família."

A família Barreto, de cineastas proeminentes, mora no Rio e é admiradora confessa de Lula. O patriarca da família, Luiz Carlos Barreto, 81, que produziu o filme brasileiro mais bem sucedido de todos os tempos, "Dona Flor e Seus Dois Maridos", procurou fazer um filme sobre o presidente após comprar os direitos, em 2003, de um livro de Denise Paraná, ex-porta-voz de Lula.

O filme foi lançado agora, disse Barreto, "porque estava pronto".

Ainda assim, atraiu críticas por suas omissões e aparentes tentativas de desinfetar a história da vida de Lula. O filme não menciona, por exemplo, o episódio quando ele tinha 29 anos e abandonou sua namorada, Miriam Cordeiro, grávida de seis meses.

Barreto disse que os cineastas tiraram a história de Cordeiro após a família dela ameaçar entrar na justiça. A família de Cordeiro não quis fazer comentários para este artigo.

"Não acredito. Parece-me que deixaram fora do filme de propósito, porque não ia ser bom para a imagem do presidente", disse Manuela Almeida, 17, depois da sessão.

O filme também substituiu a cachaça preferida por Lula por cerveja. Barreto disse que isso foi feito porque a empresa de cerveja brasileira AmBev pagou pela substituição do produto.

"Tudo o que você vê é baseado em eventos reais, com um toque de ficção", disse Fabio Barreto, diretor. "Não é um documentário". (Barreto foi entrevistado antes de ter um sério acidente de automóvel, no dia 19 de dezembro. Ele ainda está em coma induzido.)

Paraná, a roteirista, disse que várias cenas do "heroísmo" de Lula foram cortadas na edição. Os Barreto também salientam que não usaram incentivos do governo em geral disponíveis para as empresas que investem em produções brasileiras. Contudo, o financiamento ainda gera questionamentos. Algumas das maiores empresas do Brasil investiram no filme, que, a quase US$ 7 milhões (em torno de R$ 12 milhões) é o filme brasileiro mais caro de todos os tempos. Entre elas estão firmas de construção pesada, como Odebrecht e Camargo Correa, e empresas de energia elétrica que dependem de concessões do governo.

Alguns críticos afirmaram que os patrocinadores podem estar em busca de favores do governo, neste início de período intenso de desenvolvimento de infra-estrutura antes dos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio.

Se o filme vai ter um papel nas eleições ainda não se sabe. Apesar de ter uma população de mais de 190 milhões de habitantes, o Brasil tem apenas 2.300 cinemas; 93% dos municípios não têm cinemas, disseram os Barreto.

Ainda assim, os Barreto estão fazendo um esforço intenso para fazer o filme ser visto por muitos, especialmente os pobres. Os produtores planejam um segundo lançamento em março em cidades isoladas que não têm cinemas, usando caminhões e tendas para apresentar o filme, disse Barreto.

Eles estão discutindo com a gigante da mídia brasileira, Globo, que tem direitos de televisão do filme, sobre a produção de uma minissérie.

Aqui em Santo Antonio de Jesus, no interior menos afluente do Brasil, o público parece receptivo. Almeida, que vai votar pela primeira vez neste ano, disse que o filme deu a ela maior apreciação do presidente. "Vou votar na Dilma neste ano porque quero ver o país continuar no caminho que está", disse ela. "Não sei muito sobre ela, preciso saber mais, mas ouvi dizer que ela tem uma história política similar à do Lula, que ela lutou muito como ele."

2 comentários:

  1. Não assisti ao filme,ainda,mas pretendo ver!
    Sei que é a história do presidente e tal,mas é uma história comum,parecido com a de milhares de brasileiros que esfrentaram dificuldades,mas conseguiram erguer-se.No entanto, apesar de não ter nem o primeiro grau completo, o presidente mostra-se inteligente em divulgar sua biografia em pleno ano eleitoral.De fato, como muitas ações praticadas por vários políticos, o filme consiste em mais uma propaganda política mediante o sencibilidade e o presso que os brasileiros tem por histórias tão humanas e românticas. Enfim...é mais uma jogada de mestre do presidente Luis Inácio Lula da Silva.

    ResponderExcluir
  2. Não assisti ao filme,ainda,mas pretendo ver!
    Sei que é a história do presidente e tal,mas é uma história comum,parecido com a de milhares de brasileiros que enfrentaram dificuldades,mas conseguiram erguer-se.No entanto, apesar de não ter nem o primeiro grau completo, o presidente mostra-se inteligente em divulgar sua biografia em pleno ano eleitoral.De fato, como muitas ações praticadas por vários políticos, o filme consiste em mais uma propaganda política mediante a sensibilidade e o apreço que os brasileiros têm por histórias tão humanas e românticas. Enfim...é mais uma jogada de mestre do presidente Luis Inácio Lula da Silva.

    ResponderExcluir