terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Falta colocar dinheiro no bolso dos chineses

Folha de São Paulo

A maior razão para o crescimento de 8,7% do PIB na China em 2009 é: o governo chinês quis. Se o Partido Comunista consegue produzir chuvas e nevascas artificiais para mudar o clima em Pequim, o crescimento econômico em meio à recessão global não parece algo tão sobrenatural.
A China está construindo 1.000 km de metrô em 15 cidades e aprovou novos 2.500 km em outras 22 (São Paulo e Rio juntas têm 110 km). Obras tiveram o prazo de entrega encurtado de quatro para dois anos apenas para obrigar empreiteiras a contratarem mais gente e gastar mais.
O governo nacional baixou os impostos dos automóveis, para a alegria da nova classe média, que só andava de bicicleta, e obrigou centenas de prefeituras e governos provinciais a renovarem suas frotas. Foram vendidos 12,3 milhões de carros, volume suficiente para ultrapassar os Estados Unidos como maior mercado automotivo do mundo.
Bancos estatais tiveram que emprestar o equivalente a 90% do PIB brasileiro a empresas estatais e a governos provinciais que dificilmente quitarão suas dívidas, assunto empurrado para depois.
Dinheiro não falta. Com sua moeda artificialmente colada ao desvalorizado dólar e mão de obra barata, o superavit comercial do país varia entre US$ 200 bilhões e US$ 300 bilhões ao ano.
Os investimentos estrangeiros diretos no país variaram de US$ 50 bilhões a US$ 100 bilhões anualmente nas últimas duas décadas.
O país possui US$ 2,4 trilhões em reservas internacionais, mais que os PIBs de Brasil, Argentina e Chile juntos.
Por isso a overdose de estimulantes econômicos. No mês passado, foi inaugurada a linha de trem de alta velocidade entre as metrópoles de Wuhan e Guangzhou, de 960 km de extensão, praticamente a distância entre São Paulo e Brasília.
A viagem é feita em três horas (antes durava dez), e as passagens custam entre 490 yuans e 780 yuans (R$ 122,5 e R$ 195). Nas três primeiras semanas de operação, a ocupação foi de 30%. Os chineses só conseguem pagar as passagens baratas da viagem mais longa. A obra custou o equivalente a R$ 29 bilhões.
O setor privado chinês, com investimento externo de sobra, segue a mesma toada. No bairro onde moro em Pequim estão em construção três novos shoppings. Já existem na região outros dez -há cem shoppings em Pequim, quase todos construídos na última década. Ao contrário dos abarrotados mercados populares, suas lojas vivem vazias. Assim como as dezenas de edifícios comerciais e residenciais fantasmas espalhados por Pequim ou Xangai, fruto de dinheiro em excesso na mão de especuladores estatais e privados.
O consumo doméstico equivale a 30% do PIB, metade do que é no Brasil ou na Índia, enquanto os investimentos equivalem à metade do PIB. As estatísticas que apontam grande alta das vendas no varejo incluem marotamente as compras governamentais.
A aposta é no futuro. Ainda vivem no campo 53% da população chinesa (no Brasil, só 18%), e o êxodo rural continuará a promover o crescimento da economia. Cuida-se hoje que não faltem empregos, e amanhã esses prédios, esses shoppings e esses assentos nos trens estarão ocupados. Falta colocar dinheiro no bolso do cidadão chinês, mas por enquanto ele só está sobrando na mão do governo e das empresas estatais.
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Minha análise
É simplesmente incrível como o mundo ocidental é tolerante com a China. Não digo tolerância ao seu crescimento econômico, mas aos seus costumes nada democráticos, de fato, ditatoriais. Fosse outro país qualquer estava a sofrer embargos e a passar maus bocados. Isso só demonstra o quanto o jogo geopolítico é carregado de interesses e nada linear, ou seja, não há regras, cada caso e cada país tem aquilo que a sua relevância lhe permite ter. Isso é muito claro. Por isso que Cuba e Venezuela são execradas e a China não, pelo contrário, esta última até ganhou uma olimpíada de presente. À época eu dizia a quem me perguntava que Pequim não merecia ser sede dos jogos que simbolizam a convivência pacífica e democrática entre os povos - antes que alguém questione se o Rio merece, sim, merece sim, pois o Brasil é um país estável e democrático, coisa que a China não é.
Muitos aguardam o dia em que haverá uma revolução na China, no anseio por mais liberdade. Acredito que enquanto o país estiver crescendo como está, isso dificilmente acontecerá. É que as pessoas em sua vida cotidiana estão mais preocupadas com o bolso do quê com o país em si. Se não puderem falar, mas puderem comer, já estará de bom grado. Isso é compreensível e é inexigível conduta diversa. Qualquer um aqui que estivesse imerso na mais profunda miséria e, de repente, conseguisse ascender a condições melhores, provavelmente, faria o mesmo.
Na China o governo ditatorial que se diz comunista faz e desfaz. Aqui no Ocidente todos olham, alguns criticam, mas ninguém, nem os EUA, é doido de se posicionar contrário àquela que será, senão a maior, uma grande potência neste século.
Vou ficando por aqui, mas a China é um belo tema. O texto da Folha de São Paulo é ótimo e muito informativo. Deliciem-no.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Presidente eleito do Chile escolhe Brasil para primeira viagem oficial

Folha OnLine

Brasil e Argentina devem ser os primeiros destinos internacionais do presidente eleito do Chile, Sebastián Piñera, após a posse, segundo informou ele mesmo à imprensa local.

"Creio que nossas primeiras visitas estarão no mundo dos países vizinhos, particularmente Brasil e Argentina", disse o empresário, eleito no segundo turno das eleições presidenciais, no último dia 17, em entrevista ao jornal "La Tercera".

Piñera também antecipou já ter recebido convites diversos outros países. Entre as nações escolhidas para suas futuras viagens estão também as europeias Espanha e França.

Ainda de acordo com a publicação, assessores do mandatário eleito estariam convencidos de que o Brasil seria o melhor destino para iniciar a política externa do futuro governo --para fortalecer as relações com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, considerado um líder na região.

Para não descuidar do "vínculo estratégico" com a Argentina, este seria o segundo país a ser visitado, logo após a passagem pelo território brasileiro.

Antes de assumir o governo, contudo, Piñera já tem um compromisso no exterior. Ele irá para o México no próximo mês, onde participará da reunião do Grupo do Rio ao lado da atual presidente chilena, Michelle Bachelet.

Minha Análise

Essas eleições do Chile foram emblemáticas e noticiadas por boa parte da imprensa internacional, inclusive no Brasil, como um exemplo de democracia por que possibilitou ao país andino operar a troca de poder entre as frentes de coalizão que o governam. Este, a alternância do poder, é um dos fundamentos básicos do sistema democrático e, de fato, é elogiável ter o Chile conseguido aplicá-lo, sobretudo num continente onde o famigerado Hugo Chavez - e seu modelo de "democracia bolivariana" - é seguido como exemplo por outros presidentes, vide Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correia (Equador). Aqui no Brasil, depois de oito anos de governo do PSDB (FHC, 94-2002), elegemos o Presidente Lula do PT (2003 - 2010). Houve aí, também, alternância de poder. Ambos os partidos têm visões bem diferentes sobre o papel do Estado e o povo resolveu experimentar as duas fórmulas. Nas próximas eleições, embora haja outros candidatos de outros partidos, acredito que continuará havendo a já polarização entre o PT e o PSDB.

Se conseguimos alternância de poder na esfera federal, aqui no RN, não. As opções para o Senado são os já conhecidos José Agripino, Garibaldi e Wilma. Na maioria dos estados acontece coisa semelhante. Depois, já sabemos o resultado: mais do mesmo. Com um detalhe: por "mesmo" entenda-se escândalos, inoperância e atraso. O Senado, assim, continuará como está.

Para finalizar, mais uma vez, a matéria deixa mais do que claro a relevância cada vez maior do Brasil no cenário regional e global.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Poucas linhas sobre a participação do Brasil no caso do Haiti

Uma coisa que esse blog vem alardeando, há muito, é a participação cada vez mais incisiva do Brasil no contexto internacional. Nós já deixamos de ser pequenos e desimportantes e passamos à condição de ator global relevante. Para provar isso, por exemplo, basta ver a nossa participação neste último triste acontecimento lá no Haiti. Além de liberamos cerca de 20 milhões de dólares para a reconstrução do país - que eu me lembre, é a primeira vez que isso acontece-, também as nossas forças armadas enviaram ou enviarão mais contingente para ajudar na manutenção da ordem, basta que a ONU peça.
Antes que alguém diga que isso é errado e que o país precisaria, primeiro, resolver os seus problemas internos, não há um só indicador neste país, social ou econômico, importante, que não esteja melhorando sensivelmente nos últimos anos. Este blog não está dizendo que vivemos na Europa, não. Vivemos no Brasil, mas hoje o nosso país é melhor do que ontem, embora hoje e a cada dia, aprenda que tem mais para melhorar. Nunca ninguém leu uma linha aqui negando os problemas do país.
Ademais, maior liderança no contexto global não significa negar que precisamos ainda melhorar internamente. Tomara mesmo que o país aprofunde a sua participação e consiga, em breve, adentrar ao Conselho de Segurança da ONU, além de conquistar ainda mais espaço no FMI, no BIRD e em todos os outros organismos da governança global. Chega de pensamento subalterno e colonizado.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Minhas impressões sobre o caso do Haiti

Eu não vou aqui falar do caso do Haiti numa perspectiva humanista, irei apenas escrever, em tópicos, que impressões eu tenho quando acompanho a cobertura da imprensa:

  • Nossas infra-estruturas são muito suscetíveis às condições naturais. Na Geografia muito se ouve falar sobre a domínio da natureza pelo homem, mas, de fato, somos muito vulneráveis;
  • Somos muito dependentes de nossas infra-estruturas. Assim que o terremoto aconteceu passamos horas sem saber o que se passava lá, pois as linhas telefônicas foram todas interrompidas e o caos se instalou. Haitianos em outros países só agora conseguem manter contato com os seus familiares. Além dessas questões de comunicação, os transportes também ficaram altamente comprometidos. As ajudas humanitárias tiveram bastante dificuldade de chegar lá por que o aeroporto ficou paralisado. A imprensa internacional também demorou muito a chegar e a maioria entrou no Haiti via República Dominicana;
  • O Haiti é um exemplo do que é ser instável. Tomei conhecimento de que não há forças armadas no país por que um ex-Presidente, para tentar evitar golpes de Estado, cancelou todas as forças. Lá, só havia policiais e poucos.
  • A solidariedade agora é também globalizada. Haverá shows nos EUA para arrecadas fundos para o Haiti. A ajuda humanitária não pára de chegar de todo os lugares do mundo. Brasil, Europa, EUA, Japão, todos ajudam. Embora sejamos capazes de horrores como a guerra do Iraque, somos também capazes de ações bonitas como as que estamos vendo lá naquele destruído país.
Em linhas gerais é isso. Eu, se não fosse geógrafo e não fizesse direito, trabalharia com jornalismo. Acho impressionante o dinamismo das informações pelo mundo. Isso é globalização pura.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Filme sobre Lula pode influenciar eleições presidenciais no Brasil

The New York Times


Nas cenas iniciais do novo filme brasileiro, um menino de 7 anos de idade caminha descalço pela terra seca, cheia de cactos, da cidade nordestina de Caetés. Ele vai pegar água de um rio que também serve às vacas, enquanto sua mãe espera na casa de um cômodo que divide com sete outros irmãos.

O menino, Luiz Inácio Lula da Silva, tornou-se presidente do Brasil e é um dos líderes mais populares do mundo, apesar de ter apenas a quarta série primária e de uma infância na pobreza.
O filme, "Lula, o filho do Brasil", que inaugurou nos cinemas brasileiros no Ano Novo, acompanha sua inspiradora trajetória, da infância de subsistência com uma mãe muito amorosa e dedicada e um pai alcoólatra e violento, até sua ascensão heróica como sindicalista que foi brevemente preso pela ditadura militar.


"O que Lula ofereceu aos brasileiros foi a liberdade de um complexo de inferioridade", disse Fabio Barreto, diretor do filme e defensor manifesto do presidente, que não se desculpa por envernizar pontos complicados de sua história. "Esta sociedade sempre foi tratada como inferior e preguiçosa. Ninguém veio aqui para nos dizer que nosso povo era forte."

O filme é interrompido antes da carreira política do Lula decolar. Mas isso não impediu políticos e outros críticos de questionarem as intenções dos produtores, que lançaram o filme em ano de eleição presidencial.

"Tudo neste filme é político. Você não está simplesmente fazendo um filme sobre um brasileiro comum", disse Amaury de Souza, analista político do Rio de Janeiro.

Apesar de Lula não poder concorrer à reeleição, ele espera transferir sua popularidade para a chefe da casa civil, escolhida por ele como sua sucessora, Dilma Rousseff. Além da ajuda que pode dar a Rousseff, cujo nome teve dificuldade em ser reconhecido, analistas políticos veem o filme como parte da repaginação do "mito do Lula", que poderia ajudá-lo a voltar ao poder em 2014.
Durante anos, o ex-líder de um sindicato dos metalúrgicos foi retratado como uma história de sucesso da classe trabalhadora industrial, um operário de uma fábrica de automóveis que foi eleito presidente em sua quarta tentativa. Como presidente, sua administração econômica estável, apelo populista e carisma tornaram-no um ícone nacional.

Contudo, um escândalo de compra de votos no Congresso prejudicou seu Partido dos Trabalhadores em 2005, provocando uma ameaça de impeachment do presidente. Lula, então, começou a se distanciar do partido e a enfatizar sua história como "o brasileiro pobre que vem de um barraco e se transforma em presidente do Brasil", disse Souza.

O filme levará esta narrativa possivelmente para milhões de espectadores. Se a reação do público neste cinema na última quinta-feira à noite servir de indicação, vão achar sua mensagem atraente.

"Ele mostra a determinação e a vontade de viver que muitos brasileiros têm, especialmente nas classes mais pobres. E mostra a perseverança de Lula. Não sabia que ele tinha sofrido tanto", disse Gulimar Ferreira, promotor público, enquanto deixava o cinema.

Lula também ficou comovido, chorando abertamente em uma apresentação especial em novembro último. "Eu comecei a chorar no início, quando vi a imagem da minha mãe", disse aos repórteres no dia seguinte.

Em uma conferência com a imprensa no mês passado, ele negou que o filme pudesse ajudar Rousseff, cujo personagem não apareceu no filme. "O filme, na realidade, é a história da minha mãe", disse ele. "Não é um filme sobre o Lula."

Os produtores dizem que não queriam fazer um filme político, e sim que esperavam capitalizar a popularidade de Lula, que tem índice de aprovação de 70% em seu último ano de mandato.

"Não acho que um filme tenha o poder" de afetar as eleições, disse Paula Barreto, produtora do filme. "Lula é Lula, e este filme é sobre sua família."

A família Barreto, de cineastas proeminentes, mora no Rio e é admiradora confessa de Lula. O patriarca da família, Luiz Carlos Barreto, 81, que produziu o filme brasileiro mais bem sucedido de todos os tempos, "Dona Flor e Seus Dois Maridos", procurou fazer um filme sobre o presidente após comprar os direitos, em 2003, de um livro de Denise Paraná, ex-porta-voz de Lula.

O filme foi lançado agora, disse Barreto, "porque estava pronto".

Ainda assim, atraiu críticas por suas omissões e aparentes tentativas de desinfetar a história da vida de Lula. O filme não menciona, por exemplo, o episódio quando ele tinha 29 anos e abandonou sua namorada, Miriam Cordeiro, grávida de seis meses.

Barreto disse que os cineastas tiraram a história de Cordeiro após a família dela ameaçar entrar na justiça. A família de Cordeiro não quis fazer comentários para este artigo.

"Não acredito. Parece-me que deixaram fora do filme de propósito, porque não ia ser bom para a imagem do presidente", disse Manuela Almeida, 17, depois da sessão.

O filme também substituiu a cachaça preferida por Lula por cerveja. Barreto disse que isso foi feito porque a empresa de cerveja brasileira AmBev pagou pela substituição do produto.

"Tudo o que você vê é baseado em eventos reais, com um toque de ficção", disse Fabio Barreto, diretor. "Não é um documentário". (Barreto foi entrevistado antes de ter um sério acidente de automóvel, no dia 19 de dezembro. Ele ainda está em coma induzido.)

Paraná, a roteirista, disse que várias cenas do "heroísmo" de Lula foram cortadas na edição. Os Barreto também salientam que não usaram incentivos do governo em geral disponíveis para as empresas que investem em produções brasileiras. Contudo, o financiamento ainda gera questionamentos. Algumas das maiores empresas do Brasil investiram no filme, que, a quase US$ 7 milhões (em torno de R$ 12 milhões) é o filme brasileiro mais caro de todos os tempos. Entre elas estão firmas de construção pesada, como Odebrecht e Camargo Correa, e empresas de energia elétrica que dependem de concessões do governo.

Alguns críticos afirmaram que os patrocinadores podem estar em busca de favores do governo, neste início de período intenso de desenvolvimento de infra-estrutura antes dos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio.

Se o filme vai ter um papel nas eleições ainda não se sabe. Apesar de ter uma população de mais de 190 milhões de habitantes, o Brasil tem apenas 2.300 cinemas; 93% dos municípios não têm cinemas, disseram os Barreto.

Ainda assim, os Barreto estão fazendo um esforço intenso para fazer o filme ser visto por muitos, especialmente os pobres. Os produtores planejam um segundo lançamento em março em cidades isoladas que não têm cinemas, usando caminhões e tendas para apresentar o filme, disse Barreto.

Eles estão discutindo com a gigante da mídia brasileira, Globo, que tem direitos de televisão do filme, sobre a produção de uma minissérie.

Aqui em Santo Antonio de Jesus, no interior menos afluente do Brasil, o público parece receptivo. Almeida, que vai votar pela primeira vez neste ano, disse que o filme deu a ela maior apreciação do presidente. "Vou votar na Dilma neste ano porque quero ver o país continuar no caminho que está", disse ela. "Não sei muito sobre ela, preciso saber mais, mas ouvi dizer que ela tem uma história política similar à do Lula, que ela lutou muito como ele."