terça-feira, 17 de novembro de 2009

Vinte anos das eleições de 1989

Neste mês está se completando vinte anos das primeiras eleições diretas à presidência do Brasil, em 1989, aquela que elegeu Fernando Collor presidente. Embora a grande mídia quase não tenha abordado o tema, trata-se de algo da mais alta relevância para a história brasileira por se tratar, justamente, do nosso primeiro suspiro democrático pós-ditadura, já na vigência da atual constituição. A História é uma ferramenta de fundamental importância para o reconhecimento de um povo e para a sua autoconscientização. Saber como o hoje se construiu e poder fazer comparações entre o que se passou há 20, 30 ou 200 anos e o que se passa atualmente, é, por demais, válido para atestar em que pontos o país evoluiu e em quê outros ainda precisa dar grandes saltos de qualidade.
Isto posto, a impressão que eu tenho ao rever os debates presidenciais que se travaram à época, as propostas dos candidatos e as suas posturas frente ao processo eleitoral, é a de que nós, a despeito de tudo, evoluímos muito. Se hoje eu sempre reclamo e chamo a atenção de que nós não estamos discutindo os temas de que precisamos discutir para fazer o Brasil avançar, à época a situação era dramaticamente pior. Basta lembrarmos que o mais grave problema do momento, a então eminente hiper inflação, quase não era discutida e, quando o era, não se ouvia nenhuma proposta concreta para combatê-la. Só para se ter uma ideia de como era delicada a situação, a inflação anual do país, hoje, é de cerca de 5%, mas em 89 era algo próximo a 2000% e cerca de 70% ao mês. Situação precaríssima. As estruturas do próprio Estado Brasileiro estavam se dissolvendo e o governo não tinha dinheiro sequer para pagar a folha de pagamento de seu funcionalismo. A dívida externa estava em moratória e, diferentemente do momento atual, quando somamos mais de 230 bilhões de dólares em reservas, naquele momento não se juntava nem 10 bilhões. Se hoje as condições macroeconômicas do país nos possibilitaram passar por uma das mais violentas crises financeiras da história sem grandes sobressaltos, há 20 anos não era assim e tudo parecia caminhar rumo ao caos.
Estava se concluindo ali um período determinado de "a década perdida", quando o Brasil percebeu que o crescimento econômico de outras épocas, sobretudo do pretenso "milagre econômico" militar, havia se dado de forma insustentada e agora nos custaria muito caro repor ordem na casa. Era preciso reequilibrar as finanças, promover um pesado ajuste fiscal, estabilizar a economia, melhorar as ainda piores condições sociais do povo, equilibrar a dívida externa e fomentar o crescimento econômico num novo contexto geopolítico que surgia: a então "Nova Ordem Mundial" e a globalização - O muro de Berlim havia caído há poucos dias antes da eleição. O quê disso foi discutido nos debates? Nada ou quase nada. Basta lembrar que Collor, quando perguntado sobre a sua proposta para combater a inflação, respondeu que resolveria o problema com um rifle na mão, uma mira certeira e uma bala só. Isso era uma piada, não era? Era realmente para rir. Depois descobrimos que essa tal bala era o confisco das poupanças. A ordem, então, era chorar. Muitos se mataram, inclusive. Meses antes das eleições, num pronunciamento à nação, o então Presidente da República, José Sarney, enxergando um paraíso que só ele era capaz de ver, dava o tom do nível de proposição política que se fazia naqueles tempos, dizendo aos brasileiros: “... a inflação baixará, retomaremos o crescimento econômico, o país irá recuperar a sua confiança, os preços ficarão estabilizados, os investimentos públicos não inflacionários voltarão, voltarão também os investimentos privados, as eleições desse ano serão tranqüilas, o futuro presidente, eleito em novembro, encontrará o Brasil em condições de dar um novo e grande salto para o futuro...”. Simples assim. Se alguém lhe perguntasse como isso poderia ser possível, ele talvez respondesse: “Não sei, só sei que será assim”. É, Sarney, está certo que o Presidente é, em essência, um otimista profissional, já dizia FHC, no entanto, faltou-lhe somente argumentar seriamente como essas operações todas iriam se transcorrer. Faltou-lhe também dizer que ações efetivas o governo dele estava tomando para tanto. Aquela era uma situação de crise como as gerações mais jovens de hoje, especialmente as adolescentes, não têm condições de vislumbrar. O país precisava de ação, não de otimismo, meramente.
Tratava-se aquela da primeira eleição presidencial em trinta anos, aquela geração não tinha o hábito democrático como temos hoje. Aquele foi o primeiro debate presidencial da história do Brasil. É mesmo natural que as coisas se processassem daquela forma. Somente a prática democrática nos ensina como é possível aprender com o erro. O desfecho da história das eleições de 89 aconteceu em 91, com o então Presidente Collor sofrendo um penoso impeachment. A partir daí assumiu o seu vice, Itamar Franco, e, em 94, FHC, à época Ministro da Economia, lança o plano real e cria as bases do que seriam oito anos de governo seus. Logo após Lula seria eleito presidente e o resto da história todos sabemos.
Ao revisitar a história recente do Brasil, saio com a profunda convicção de que, embora tenhamos ainda imensos problemas que jamais poderão, tampouco deverão, ser negados, este país já mostrou que é capaz de superar os seus percalços, de aprender com eles e de melhorar. Hoje somos estáveis, a inflação é matéria de livros de história e as perspectivas futuras que se fazem sobre nós são as melhores possíveis.
Próximo ano haverá eleições presidenciais. Pela primeira vez, desde 89, Lula não será candidato. O país estará entrando numa outra fase de seu debate político, mais maduro e com mais disposição de realmente discutir os seus maiores problemas. Cada um de nós é parte disso. Temos que dar a nossa contribuição. Estejam atentos no que dirão Serra, Dilma, Ciro e Marina. Não aceitem respostas ocas, inócuas. O populismo barato a la Chávez, de quem tanto tenho falado ultimamente neste blog, é um mal que merece ser varrido da vida política, sob pena de se cultuar o atraso e a ignorância. Precisamos tomar a decisão mais acertada para o nosso país, de forma crítica, livre, independente e consciente.
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Viva à estabilidade democrática!

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