quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Na Venezuela rica em energia, Chávez diz ao povo para economizar

The New York Times
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Este país pode ser um colosso de energia, com as maiores reservas convencionais de petróleo fora do Oriente Médio e um dos mais poderosos sistemas hidrelétricos do mundo, mas isso não a impediu de sofrer sérios problemas de falta de eletricidade e água que parecem estar piorando.O presidente Hugo Chávez está enfrentando protestos da população nas últimas semanas devido a cortes de energia elétrica que, após seis apagões nacionais nos últimos dois anos, estão interrompendo o fornecimento de eletricidade por horas a cada dia nas áreas rurais e em cidades industriais como Valencia e Ciudad Guayana. Agora, o racionamento de água foi introduzido aqui na capital.


A deterioração dos serviços causa perplexidade para muitos aqui, especialmente porque o país se acostumou a água e eletricidade baratas e abundantes nas últimas décadas. Mas enquanto o boom do petróleo enriquecia seu governo e Chávez assumia maior controle sobre as empresas de utilidade pública e outros setores nesta década, os serviços públicos pareciam apenas se deteriorar, aumentando as frustrações dos moradores.Com o declínio da receita do petróleo e a desaceleração econômica, não parece haver solução rápida para o problema.
O governo anunciou algumas medidas de emergência nesta semana, incluindo limites às importações de aparelhos de ar condicionado, aumentos de tarifas para os grandes consumidores de energia e a construção de novas usinas a gás, que só ficarão prontas na metade da próxima década.Ceticismo também persiste em torno de outro plano - o desenvolvimento de um programa de energia nuclear - porque exigiria o gasto de multibilhões de dólares e extenso treinamento dos cientistas venezuelanos em um momento de déficits orçamentários e queda da produção de petróleo. A resistência diplomática potencial a uma cooperação da Venezuela com o Irã em assuntos nucleares poderia atrasar ainda mais essas ambições."Nós estamos pagando pelos erros deste presidente e seus administradores incompetentes", disse Aixa Lopez, 39 anos, presidente do Comitê das Vítimas de Apagão, que organizou protestos em várias cidades.
Em algumas cidades, os manifestantes abandonaram aparelhos domésticos na entrada das companhias elétricas do Estado.Em resposta, Chávez está embarcando em sua própria cruzada: pressionar os venezuelanos a economizarem, ridicularizando seus hábitos de consumo. Ele iniciou suas críticas no mês passado, com o tempo que os cidadãos gastam sob seus chuveiros, dizendo que banhos de três minutos eram suficientes. "Eu contei e não terminei fedido", ele disse. "Eu garanto."Então ele foi atrás dos motéis e shopping centers da Venezuela, os acusando de desperdício. "Comprem seu próprio gerador", ele ameaçou, "ou cortarei sua luz".
Ele igualmente culpou os "oligarcas", um insulto usado com frequência aqui para os ricos, por consumo excessivo de água nos jardins e piscinas.Chávez até mesmo investiu contra a cintura em expansão dos seus conterrâneos: "Fiquem de olho nos gordos", ele disse no mês passado, citando um estudo apontando um aumento da obesidade. "É hora de perder peso por meio de dieta e exercício."Enquanto Chávez ataca esses problemas, o declínio dos serviços públicos da Venezuela oferece o que pode ser um exemplo da "maldição de recursos": a ideia de que alguns países com recursos naturais abundantes apresentam sociedades atrapalhadas por discórdia política, crescimento atrasado e ineficiências clamorosas.
No papel, pelo menos, a Venezuela deveria estar nadando em energia excedente. O país possui reservas imensas de petróleo e gás natural, além de depósitos consideráveis de carvão. Seu complexo hidrelétrico de Guri, construído com as riquezas de petróleo nos anos 60, continua sendo um dos maiores projetos hidrelétricos do mundo.Guri fornece à Venezuela até três quartos de sua eletricidade e, igualmente crucial, permite à Venezuela exportar cerca de 500 mil barris de petróleo por dia, que caso contrário seriam necessários para atender à demanda por eletricidade.Mas economistas de energia daqui dizem que uma combinação de negligência e mau planejamento levaram Guri ao seu limite nesta década, enquanto outros projetos de eletricidade, incluindo vários construídos nos últimos anos para serem alimentados por gás natural, permanecem completa ou parcialmente ociosos.
O governo Chávez culpa as chuvas relativamente baixas deste ano pelo nível baixo das águas em Guri e pelo declínio do fornecimento de água em Caracas. Mas ex-funcionários do governo Chávez, entrevistados aqui, disseram que os problemas são maiores do que apenas falta de chuva.Eles disseram que o presidente encorajou o consumo com um decreto de 2002, que congelou as tarifas de eletricidade e outros serviços de utilidade pública. Uma mudança de fuso horário promovida por Chávez em 2007, atrasando os relógios em meia hora, também levou a um aumento de consumo (o anoitecer chega mais cedo aqui do que antes).Enquanto isso, a nacionalização na prática suspendeu os projetos de energia renovável, como o plano da AES Corp., que costumava controlar a principal companhia elétrica em Caracas, para um projeto de energia eólica na península de Paraguana. Apesar do grande potencial de energia eólica e solar da Venezuela, a energia renovável aqui permanece insignificante.Mais importante pode ser o fracasso do governo em usar suas imensas reservas de gás natural, as segundas maiores do hemisfério, atrás apenas das dos Estados Unidos, para alimentar as usinas elétricas existentes.O gás da Venezuela é tecnicamente difícil de extrair, porque 90% dele estão associados ao petróleo, mas grandes projetos foram abandonados enquanto o vizinha da Venezuela, Trinidad, explora as reservas de gás adjacentes com facilidade.
A Venezuela depende da Colômbia, país com o qual mantém laços cada vez mais tensos, para importação de gás.Como resultado, há uma desconexão entre o potencial de energia da Venezuela e sua capacidade de manter as luzes acesas. Outdoors aqui enaltecem uma "revolução do gás natural" e a proeza demonstrada por um satélite colocado em órbita no ano passado, com ajuda da China, enquanto apagões diários atormentam as áreas pobres onde o satélite supostamente deveria ajudar a fornecer serviços de telefonia e Internet."O problema não é falta de dinheiro", disse Victor Poleo, um ex-ministro da Energia de Chávez. "É um militarismo irresponsável e corrupto que substituiu o profissionalismo no setor."Enquanto isso, lares e empresas por todo o país se adaptam ao fornecimento errático de energia e, aqui em Caracas, de água. As vendas de pequenos geradores, velas e tanques de água estão aumentando. Refletindo o desconforto da base industrial já em dificuldades, que se desenvolveu em torno do acesso a energia barata e abundante, a Sidor, uma siderúrgica em Ciudad Guayana, disse que desativaria suas fornalhas cinco horas por dia devido aos cortes."Se esta crise nos ensina algo", disse Fernando Branger, um especialista em energia do Instituto de Estudos Superiores de Administração, em Caracas, "é que a imensidão de nossas reservas de energia não significa nada se não podemos nem mesmo extraí-las do solo".

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