sábado, 19 de setembro de 2009

Genealogia de Chávez

Até que ponto o fenômeno Chávez vai perdurar? Embora tenha substituído Fidel Castro no panteão dos heróis vivos, Hugo Chávez não é Castro.

BÓRIS FAUSTO
COLUNISTA DA FOLHA

Hugo Chávez, presidente da Venezuela, converteu-se nos últimos anos numa figura central da cena política latino-americana.Depois que Fidel Castro envelheceu e perdeu o brilho, depois que Lula -seu entusiástico admirador de outros tempos- guardou distâncias, em boa hora, Chávez se converteu no novo super-herói de uma certa esquerda, se é que a expressão se aplica a esse contingente. Exemplos do encanto chavista se revelam nos encontros do Fórum Social Mundial ou, para tomar um exemplo recente, no apoio que o presidente venezuelano recebeu, no Brasil, de organizações como o PT, o MST e o PSOL diante da medida de cassação [da concessão] da rede de TV RCTV, numa demonstração de nítido desprezo pela liberdade de expressão.Neste texto, trato de me concentrar na biografia de Chávez e nos pontos mais relevantes de sua ideologia. A referência básica é o livro de dois jornalistas venezuelanos, Cristina Marcano e Alberto Barrera Tyszka, com o título "Hugo Chávez sem Uniforme - Uma História Pessoal" [ed. Gryphus]. Publicado em 2004, sem o conhecimento, portanto, das novas e mais profundas escaladas chavistas, a análise dos autores mantém, entretanto, a atualidade.Chávez nasceu num povoado, Sabaneta de Barinas, nos "llanos" venezuelanos [planícies do norte e noroeste do país], filho de um modesto professor, sendo o segundo entre seis irmãos.A condição social e a proveniência geográfica lhe permitiram construir um imaginoso mito de origem, ao qual se refere com freqüência em suas falas, recordando a vida simples, as histórias de infância, as músicas da cidade natal. Consta que Sabaneta de Barinas, fundada antes de Caracas, foi um centro dramático das guerras da Independência, a ponto de sua população de 10 mil habitantes ter-se reduzido apenas a 600 pessoas no fim dos conflitos. A opção do presidente venezuelano pela carreira militar não representou necessariamente uma vocação, mas uma das poucas alternativas abertas para um jovem de sua origem.A socialização nesse âmbito, as amizades e lealdades que aí forjou são importantes para entender o personagem que emergiu da obscuridade com a tentativa do golpe de abril de 1992.

Animal político
Seria, porém, insuficiente querer explicar a figura de Chávez apenas pela formação militar. No livro citado, Barrera e Marcano acentuam que, acima de tudo,Chávez é um "animal político", dotado de uma grande intuição, de um grande olfato. Nesse ponto, é preciso qualificar melhor.Sem dúvida, Chávez vive e respira política, mas seu olfato e sua intuição cedem muitas vezes lugar a uma agressividade sem limites, que só lhe cria problemas.Os exemplos são muitos. O mais recente é o das ofensas dirigidas ao Senado brasileiro -que pode ser tudo, menos "papagaio de Washington"-, forçando o presidente Lula a demonstrar desagrado e um distanciamento mais nítido do companheiro de tempos atrás. Guardadas as diferenças, Chávez lembra os generais nacionalistas convictamente autoritários, inimigos da velha oligarquia, que vicejaram na América Latina. Não é ocasional sua admiração pelo general Velasco Alvarado, presidente do chamado "Governo Revolucionário das Forças Armadas do Peru" (1968-75), resultante de um golpe militar.

Revolta bolivariana
Proveniente de uma família humilde, Velasco Alvarado esteve à frente de um governo reformista autoritário, que nacionalizou a indústria petrolífera peruana e promoveu uma reforma agrária. Chávez, a princípio, foi influenciado também por ex-guerrilheiros de proa, como Douglas Bravo e Teodoro Petkoff, antes de chegar ao poder. Entretanto, tanto Bravo quanto Petkoff romperam com ele por razões políticas, e este último está hoje no campo da oposição democrática esclarecida, como político e jornalista.O presidente venezuelano, inegavelmente, tem o talento de recorrer ao passado ao construir sua imagem de líder incontrastável. Antes de chegar ao poder, escreveu um livro intitulado "El Libro Azul - El Árbol de Tres Raíces", em que define seu Movimento Revolucionário Bolivariano como "um modelo ideológico autóctone, enraizado no que há de mais profundo de nossa origem e no subconsciente do ser nacional".As três raízes do título referem-se a Bolívar [1783-1830], em primeiríssimo lugar, depois a Ezequiel Zamora, líder em meados do século 19 de uma insurreição camponesa, e a Pedro Pérez Delgado, bisavô de Chávez, mais conhecido como "Maisanta", tido como um combatente guerrilheiro contra a ditadura de Juan Vicente Gómez nos primeiros anos do século 20.Mas é Simón Bolívar o grande personagem do panteão de Chávez, que, como se sabe, mudou o nome do país para República Bolivariana da Venezuela.Com o culto a Bolívar, Chávez magnifica uma tradição patriótica, centrada na figura do "pai da pátria", herói das guerras da Independência latino-americana.A Venezuela não é um país que tenha uma enraizada cultura política democrática ou mesmo liberal. Entre 1830 e 1958, o país foi governado por civis durante nove anos apenas.Só a partir dessa data se abriu um período democrático, que resultou numa sucessão de presidentes regularmente eleitos, associados, porém, com algumas exceções, a uma calamitosa corrupção. Esse quadro, acrescido da crise econômica, acabou por desmoralizar a democracia e abrir caminho para o golpismo "purificador".Esses antecedentes explicam o fato de que o golpe militar de abril de 1992, liderado por Chávez, tenha fracassado, mas não tenha sido derrotado. Desde os primeiros dias de uma prisão que duraria menos de dois anos, ele se tornou um personagem admirado por amplas camadas da população -e não apenas pelas classes populares. Seu acesso à televisão, já preso, pouco após o golpe, revelou ao grande público os traços de um personagem decidido, dotado de um imenso poder de comunicação.Num cenário sociopolítico de massas, que caracteriza os pleitos eleitorais, que torna cada vez mais indispensável a capacidade de se comunicar com o grande público, Chávez utiliza seus dotes com maestria.Em toda a América Latina, os mais pobres parecem estar cansados dos discursos bem articulados, mas que transpiram uma distância entre o governante e a massa popular.

Apelo popular
Tal como o presidente Lula, Chávez sabe muito bem disso. Deixa de lado discursos escritos, opta por falar de improviso -embora seja possível que o "improviso" já venha decorado-, diz disparates ou lança ameaças que seus seguidores acolhem com entusiasmo.O traço principal da fala de Chávez é a confrontação. Nessa linha, investe contra o "Grande Satã do Norte", no melhor estilo islamista, ofende o presidente [dos EUA, George W.] Bush com os epítetos mais grosseiros.A paciência de Bush -diga-se de passagem- não deriva da caridade cristã, mas principalmente do fato de que o presidente venezuelano vem cumprindo os contratos de fornecimento de petróleo aos EUA.No plano interno, Chávez refere-se com o maior desprezo aos privilegiados, entre os quais não se incluem, entretanto, os fíéis "boliburgueses" [adeptos abastados da "revolução bolivariana"] que vicejam à sua sombra, promovendo toda sorte de negócios.Contando com um grande apoio ao alcançar o poder nas eleições de 98, alienou a classe média e boa parte das elites, por adotar a linha de confrontação e escalar no rumo da implantação de um regime autoritário.É forçoso convir, ao mesmo tempo, que a oposição facilitou em muito seu caminho, com seus preconceitos arraigados e, mais ainda, com suas ações desastrosas. Para ficar num só exemplo, a fracassada tentativa de golpe antichavista de abril de 2002 manchou as supostas credenciais democráticas de certos opositores, provenientes de círculos empresariais e de setores militares.A íntima relação entre a figura de Chávez e as grandes massas não é feita apenas de palavras, embora as palavras sejam muito mais do que simples fumaça que se esgota no ar.A rede assistencial constituída pelas chamadas "misiones" [programas de saúde, alfabetização etc.] nada tem de desprezível, combinando o auxílio, sob variadas formas, às camadas mais pobres da população, com a constituição de uma poderosa rede de fiéis seguidores.Como em outras partes, também aí a lógica dos benefícios materiais se combina com a lógica simbólica.Até que ponto o fenômeno Chávez vai perdurar? Embora tenha substituído Fidel Castro no panteão dos heróis vivos, Hugo Chávez não é Castro. Os tempos são outros, e a Guerra Fria, pelo menos tal como se definia no passado, se foi.

Revolução exportada
Na política externa, ainda que algumas vezes chegue a falar em transformações de efeito planetário, Chávez busca construir uma hegemonia na América Latina pela via dos favores que o petróleo permite, pela construção de uma entidade exótica, a chamada Alba -Alternativa Bolivariana para as Américas-, por propostas que vão desde a formação de uma rede de TV continental, para opor-se à ideologia imperialista, até a construção de um grandioso gasoduto, cortando a América Latina de norte a sul.Mas seu ímpeto político -a "exportação da revolução" de outrora, transformada na tentativa de intervir na política interna em países do continente- tem provocado mais resistências do que apoios, como se viu no caso do Peru, do México, do Brasil e do Chile, no governo socialista do presidente Ricardo Lagos.É claro que um fator desencadeante do declínio de Chávez seria uma queda vertiginosa dos preços do petróleo -hipótese, porém, bastante remota.Melhor será apontar os pontos mais frágeis de seu governo, como a inflação, o elevado grau de corrupção -que ele mesmo admite e diz combater-, o estado de abandono da infra-estrutura material do país, a crise de gêneros alimentícios.Se todos esses fatores combinados têm influência, o mais importante me parece ser o baixo índice de coesão social.A Venezuela é hoje um país dividido ao meio, e uma nova oposição democrática parece desenhar-se, superando, na medida do possível, os erros do passado.Em poucas palavras, os propósitos de Chávez de se reeleger indefinidamente, quem sabe até 2021, devem frustrar-se bem antes do que alguns imaginam.

BORIS FAUSTO é historiador e preside o conselho acadêmico do Gacint (Grupo de Conjuntura Internacional), da USP. É autor de "A Revolução de 1930" (Companhia das Letras). Ele escreve mensalmente na seção "Autores", do Mais!.

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