domingo, 30 de agosto de 2009

Para intelectuais, crise política e Marina mostram fim da polarização PT-PSDB

UOL Notícias
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Num determinado momento, o mediador Carlos Torres Freire brinca: é um festival de mea culpa, o filósofo José Arthur Gianotti criticando o PSDB e Marcos Nobre, o PT. Para completar o quadro, entre os ouvintes, o sociólogo Francisco de Oliveira, historicamente mais à esquerda (hoje, ele é filiado ao PSOL), criticando os dois partidos. Mas concordando em grande parte com as análises de Gianotti e Nobre.
De forma sintética, pode-se dizer que os dois - ou melhor, os três, num raro consenso, o que torna essa síntese mais relevante - acreditam que a política vive uma crise, que esta crise mostra que a polarização entre blocos formados por PT e PSDB está perto de seu limite, que o Parlamento se "autonomizou" em relação à sociedade e que a reação à provável candidatura de Marina Silva, até o momento, é uma espécie de resposta desta sociedade a uma política que deixou de ouvi-la.
Na sexta-feira (28), o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), de São Paulo, colocou na mesa Gianotti, professor emérito da USP, e Nobre, professor da Unicamp, representantes de duas gerações da instituição, para debater a crise no Parlamento.
Com o pequeno auditório lotado de intelectuais, eles apresentaram suas análises para a atual crise. Chico de Oliveira, também emérito da USP, foi o mais ativo na audiência, que contava com outros intelectuais de peso.
Nobre apresentou primeiro sua tese: para ele, entre 1992 e 1994, Fernando Henrique Cardoso, ao aproximar o PSDB do PFL (atual DEM), organizou a política brasileira em dois grandes pólos: um liderado pelos tucanos, outro pelo PT e seus tradicionais aliados. O PMDB seria uma espécie de "zona neutra" entre os dois, podendo compor qualquer um dos governos.
Após ser eleito, em 2002, Lula tentou resistir a essa organização, evitando se aliar ao PMDB. O preço que pagou foi a crise do mensalão. Depois de 2005, ele aceita o modelo colocado por FHC, incorpora o PMDB ao governo e passa, cada vez mais, a depender do partido de Renan Calheiros (PMDB-AL) e José Sarney (PMDB-AP).
Segundo Nobre, Lula então percebe, ainda em 2007, que, para evitar que seu governo caísse na fase do "pato manco", ou seja, a sensação de "fim de feira", em que nada funciona direito, precisava controlar a sucessão. Daí o projeto de impor Dilma Rousseff ao PT e de antecipar o debate em torno de 2010, tentando manter a polarização entre seu partido e o PSDB.
Essa estratégia rendeu-lhe, primeiro, a crise que levou ao afastamento de Renan Calheiros da Presidência do Senado e, depois do anúncio do câncer de Dilma, a que não conseguiu afastar José Sarney.
Nobre acredita que há uma crise no "sistema de gerenciamento instaurado por FHC", expresso pela resistência de Sarney. Para ele, esse sistema não se mostrou suficientemente maleável e está "fazendo água".
Desde o impeachment de Fernando Collor, em 1992, havia uma expectativa da sociedade de que é possível pela pressão popular, ainda que sublimada pela figura da "opinião pública", afastar políticos acusados de ilegalidades.
"Aconteceu com Luiz Carlos Mendonça de Barros (que deixou o Ministério das Comunicações de FHC em 1998, suspeito de favorecimento num episódio relacionado às privatizações na área), com Antonio Carlos Magalhães e Jáder Barbalho (que deixaram o Senado em 2001 após troca de acusações de corrupção e da violação do sigilo de uma votação na Casa). Renan foi a primeira virada: deixou a Presidência, mas não o Senado. Agora, Sarney permaneceu na Casa e na Presidência", elenca.
Em resumo, o sistema de dois pólos não está mais funcionando. A resistência de Sarney indica o fechamento do sistema político ao controle indireto. "Quanto mais o sistema faz água, mais ele se fecha", avalia Nobre.
Gianotti, por sua vez, acredita que a caminhada em direção ao centro pelo PT, com uma aliança maior do que a feita por FHC, quebrou uma regra básica da política: "A política junta as pessoas e, ao mesmo tempo, divide. Política implica aliados e adversários."
Com o "bolão" formado por Lula, argumenta Gianotti, "o jogo político passou a não mais dividir, a ponto de até o Mangabeira Unger virar ministro", completou, arrancando risos dos ouvintes. "Sem divisão, a luta pelo recurso público aumentou", houve um "rebaixamento dos compromissos morais", e a "política foi para um lado e a sociedade para o outro."
Nesse contexto, a moralidade é usada como arma para a mídia pela oposição (PSDB-DEM) e pelo governo. Gianotti fez, então, referência ao embate entre Suplicy (PT-SP) e Heráclito Fortes (DEM-PI). Para o filósofo, "foi uma cena patética, com os dois se desmoralizando em público".
Neste contexto, em que o jogo político não mais funciona, surge espaço para "um tercio", um terceiro candidato - alguém que surja com o papel de "moralizar a política". Esse nome, para Gianotti, pode ser o de Marina Silva, que vê com mais simpatia, Ciro Gomes (PSB-CE), que Gianotti teme como figura autoritária, ou "alguém da direita".
"Marina higieniza a política. Traz para a pauta política a questão ambiental. Por outro lado, temos uma pessoa que não tem uma compreensão ampla do capitalismo atual", diz.
Tanto ele quanto Nobre seriam, no decorrer do debate, questionados sobre a real possibilidade de a candidatura Marina Silva emplacar. Para os dois, mas especialmente para Nobre, o que está em jogo não é exatamente se ela vai ter uma votação expressiva em 2010, mas a recepção que seu nome teve. Ele comparou essa repercussão a uma espécie de recado da sociedade - se o sistema em dois pólos não funciona mais e se torna insensível à sociedade, ela se manifesta por meio de um terceiro elemento, um terceiro nome.
Chico de Oliveira, que recentemente disse ao UOL Notícias que a candidatura Marina seria "um raio de sol" diante do quadro PSDB-PT, concordou com boa parte da análise da mesa. Para ele, "a política tornou-se irrelevante para o povão: Ela não diz nada sobre o cotidiano e sobre a economia". Sintoma disto, diz, ocorreu durante a crise do mensalão, em 2005, quando os comentaristas econômicos diziam que o importante era a crise não afetar a economia. "Crise política que não afeta a economia não vale! A crise política é feita para desestabilizar a economia."
Para ele, houve a tal "autonomização" da política, em parte porque o desenho da política em dois pólos, o do PT e o do PSDB, que parecia corresponder às forças sociais, deixou de funcionar. "A política não regula mais a luta de classes", disse Oliveira. Ela estaria amortizada, e Lula teria promovido essa "regressão".
Em relação a Gianotti, Oliveira disse discordar de uma posição do filósofo, a de que FHC "enrijeceu a disputa pelo fundo público - ao contrário, abriu, permitindo que todos os grupos o pudessem disputar." Com seu programa de destruir a Era Vargas, "que é a construção do Estado brasileiro", argumenta Oliveira, FHC desbloqueou os mecanismos regulatórios, "e o pasto ficou livre". "A gente se diverte, lê jornal, quer matar o Sarney, não adianta nada. Esse sistema cria seus filhotes independentemente da vida real."
Gianotti defendeu também que a atual conjuntura torna a crise no gerenciamento político especialmente problemático. "O sistema político não está mais respondendo aos grandes problemas políticos do país", e esse problema não se limita ao Legislativo. Cita, por exemplo, a demora para a definição do modelo do pré-sal e a crise na Receita Federal. Marcos Nobre, nesse ponto, acrescenta os sucessivos adiamentos no Supremo Tribunal Federal de questões fundamentais.
Sobre 2010, ainda, Chico de Oliveira previu que a candidatura Dilma Rousseff vai enfrentar dificuldades, diante da decisão do Supremo Tribunal Federal de excluir Antonio Palocci do processo de quebra do sigilo bancário de Francenildo Costa.
"Provavelmente as forças internas do PT vão exigir a retirada da Dilma e a colocação do Palocci. Se isso vai dar certo ou não, não sei", diz. Para ele, Palocci não deve se contentar em ser, apenas, o maestro do "concerto de gala" de Dilma.
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Minha opinião
Acho que é muito cedo para se falar sobre o fim da polarização entre o PT e o PSDB. Marina Silva candidata a presidente da República é um fato novo demais para nós podermos afirmar isso com tanta veemência. Claro que os intelectuais estão em certa medida corretos no que dizem e é fato que concordo com boa parte dos seus argumentos, no entanto, acredito que as eleições de 2010 vão, ainda, oscilar entre Dilma e Serra. Não tecerei maiores comentários aqui sobre o que eu penso a respeito de uma possível candidatura da Senadora Marina Silva por que pretendo fazer um tópico exclusivo para isso, mas ela é um bem-vindo fato novo. Quanto mais pólos ideológicos tivermos no debate da sucessão, melhor para nós eleitores.

2 comentários:

  1. Seria perfeito se a lógica realmente fosse essa,pois a corrupção terá que desaparecer e os políticos integros e honetos deverão ganhar um espaço de destaque nesse país;cria-se novas esperanças e as expectativas são renovadas a cada nova eleição,espero que dessa vez como nas antepassadas não sejam frustadas!

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  2. Concordo com você, mas, veja, mesmo havendo frustrações, não podemos desacreditar da democracia. Só ela é capaz de nos trazer dias melhores. Votando e cobrando melhoraremos o país.

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