quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Um sonho "hispânico-Portuga"

Por Arnaldo Jabor
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Em casa sem pão, todos brigam e ninguém tem razão. O MERCOSUL só serviu para manter uma utopia de união, um sonho "hispânico-portuga". Até agora, só vimos brigas e disputas e só levamos ferro. O que ganhamos com a Argentina, por exemplo, além de disputas sobre taxas de importação? Os governantes usam o MERCOSUL para ter liderança. Poder é o que busca o sabotador Chávez e o nosso Lula, que quer ser o grande irmão do país maior e mais rico. Aí mora o perigo. Nós somos um problema para os hispânicos desde o tratado de Madrid em 1750, que nos beneficiou. Eles têm inveja de nós e nos provocam para esconder a sua incompetência interna. Nessa reunião, o Rafael Corrêa, com seus olhinhos verdes de ditador narcisista, repetiu, ali na cara do lula, o seu propósito de dar calote no BNDES e, mesmo assim, ainda fala em criar uma moeda única para a América Latina! Pesos brasileiros, bolívares ou patacas do Equador? O Paraguai defende a dupla taxação por que é um país sacoleiro e lucra com o contrabando. O Chávez foi ali fazer propaganda contra o bush, um cachorro morto levando sapatada. O MERCOSUL impede que negociemos separadamente e não nos deixa negociar dentro. Daí termos de acabar com esta ilusão. O MERCOSUL nem transa nem sai de cima.
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Minha opinião
Eu vi esse comentário ontem no Jornal da Globo e me impressionei com o tom dele. Resolvi publicá-lo aqui no blog não, necessariamente, por que eu concorde com o que o Arnaldo Jabor falou, na verdade discordo de boa parte, mas pq eu o achei ousado. Ele pegou pesado e fez severas críticas ao Mercosul. Falou mesmo o que achava do Paraguai, do Chávez, do Bush e do Correa. Gosto de opiniões fortes assim, embora, repito, não concorde com quase nada e ache que o Mercosul é viável sim e que nós temos muito a ganhar com a integração regional da América do Sul. Rusgas diplomáticas existem e vão continuar havendo durante muito tempo, até mesmo na União Européia.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Pagamos o preço do descaso urbanístico

Por Kennedy Alencar
Colunista do Folha On Line
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumpriu o ritual que se espera de alguém em sua posição. Visitou áreas devastadas por enchentes em Santa Catarina e liberou recursos com alguma presteza. É injusta a crítica de que Lula demorou a agir.
De fato, ele tinha compromissos de estado, como a visita do presidente da Rússia, Dmitri Medvedev. E, na manhã da última segunda-feira, antes de começar a reunião ministerial, Lula orientou ministros a agir rapidamente, o que foi feito.
De imediato, o importante é socorrer as vítimas. É preciso que a ajuda chegue rapidamente a quem necessita. Será necessário um acompanhamento gerencial rigoroso para avaliar se os recursos realmente chegarão lá na ponta, como se costuma dizer na burocracia.
E as causas de fundo? Quais são?
Houve um rápido processo de urbanização do Brasil no século passado, sobretudo na segunda metade. As cidades cresceram rapidamente sem planejamento urbanístico, visto como frescura por administradores obreiros.
São Paulo tinha as suas marginais que inundavam todos os anos, problema que diminuiu bastante faz pouco tempo. O Rio padece a cada verão. As moradias em encostas em Belo Horizonte também. Até as tesourinhas do Plano Piloto de Brasília, aquelas passagens de nível que parecem autorama, são armadilhas em tempos de chuva --isso numa cidade com menos de 50 anos e que foi supostamente bem planejada. Todas as grandes cidades brasileiras sofrem com bueiros entupidos --e boa parte dessa culpa é de quem joga lixo na rede pluvial. Ligações clandestinas na rede de esgoto são uma mania nacional, não só dos pobres. Em Brasília, há construções de classe média alta jogando esgoto no Lago Paranoá.
O que se vê agora em Santa Catarina é uma repetição do que aconteceu no início dos anos 80. Passaram-se 30 anos, tempo suficiente para um planejamento urbanístico conseqüente produzir resultado.
A gente sabe que o cobertor é curto. Há uma briga danada pelos recursos dos orçamentos públicos. Num país com as carências do Brasil, o sujeito que tem um barracão no alto do morro está bem melhor do que aquele que dorme na sarjeta. Favelas e moradias irregulares viraram uma triste realidade.
Há ainda a corrupção, um problema endêmico no Brasil, mas muito menor hoje do que foi no passado. Obviamente, existem prioridades sociais, como melhorar nossos sistemas educacional e de saúde.
Dito isso, parece óbvio que o planejamento urbanístico deva virar uma prioridade dos administradores nos níveis federal, estadual e municipal. A ausência desse planejamento é a principal responsável por tragédias como a de Santa Catarina. É preciso pensar o crescimento das cidades. Dentro do possível, ordenar ou minimizar a bagunça que já existe. Fiscalizar construções irregulares não só de peixinhos, mas também dos tubarões. E oferecer uma alternativa razoável para quem tem um teto na beira do precipício.
Sem essas medidas, não adianta culpar o presidente, o governador, o prefeito, São Pedro e o aquecimento global. Mas adiantaria muito cobrar medidas dos três primeiros e pensar bastante antes de entupir com lixo a rede pluvial.
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Kennedy Alencar, 41, colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre bastidores do poder, aos domingos. É comentarista do telejornal "RedeTVNews", de segunda a sábado às 21h10, e apresentador do programa de entrevistas "É Notícia", aos domingos às 23h30.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O movimento separatista no Brasil

Resolvi escrever esse artigo inspirado nos últimos acontecimentos ocorridos em Santa Catarina. Não farei aqui uma análise humanitária, nem tampouco irei fazer campanha para os donativos, isso é uma decisão de cada um, e eu já fiz o meu. Na verdade, o meu ponto aqui é analisar alguns acontecimentos inerentes a esse contexto. É público e notório que a região Sul do país abriga um sentimento separatista que, se comparado aos da Europa, é fraco e pequeno, mas se comparado aos das outras regiões brasileiras, é o maior. Há no orkut uma série de comunidades intituladas "O Sul é o meu país", "Santa Catarina Livre" ou "Rio Grande independente". Uma lida nos tópicos de algumas dessas comunidades é de dar náuseas. Há um forte sentimento neonazista baseado numa suposta superioridade racial e econômica. Nós aqui do Nordeste somos esculachados, vistos como miseráveis e causa da pobreza do país. Há também sentimentos separatistas fortes em São Paulo e até mesmo, em bem menor escala, no Amapá.

Muito bem, é sobre isso que tecerei alguns poucos comentários. Não lhes envergonha o fato de um país tão grande, bonito e diversificado como o nosso nutrir esse tipo de sentimento? Será que não é claro na cabeça de todos que nós só somos a sexta economia mundial pq somos um só? Pq somos o Brasil? Com todo respeito, não tenho vocação para morar em Bolívias, Perus e Paraguais da vida e seria justamente isso que nos tornaríamos se nos separássemos. Nem de longe teríamos a influência que temos. Nossa língua não seria a mais ensinada na América do Sul, nem tampouco haveria algum pentacampeão mundial. Seria uma verdadeira lástima, menos para os movimentos separatistas, por óbvio. Parece-me que eles não têm noção do processo histórico que construiu o nosso território e a nossa nação. Não há um só estado brasileiro que, sozinho, consiga se sobrepor aos desafios que o mundo atual nos impõe e uma prova disso é Santa Catarina que, acometido por uma tragédia, bateu às portas da nação pedindo ajuda, tal qual nós faríamos ou o Rio Grande do Sul, o Acre ou qualquer outro estado, faria. Nem mesmo São Paulo, estado que equivale a 30% do PIB nacional, seria o que é sem nós outros. Alguém aqui se lembra quando Getúlio Vargas torrou dinheiro da nação para comprar o café dos ricos produtores paulistas no intuito de evitar a quebradeira que a crise de 29 gerou? Pois é, o Brasil socorreu aos paulistas. Mas não é nem só isso. Veja esse mapa:

Ele representa as principais rodovias federais asfaltadas do país. De longe o Centro-Sul é mais contemplado, justamente pq as indústrias lá instaladas precisam de matéria-prima, mão-de-obra e mercado consumidor de outras regiões. O processo histórico de construção do nosso território pôs aquela região em evidência, concentrou recursos lá e a transformou no centro do país. Milton Santos dizia que todas as outras regiões são periferias dispostas ao enriquecimento do centro. Depois ainda se ouve pessoas do Centro-Sul dizer que eles sustentam todo o país e que por isso seria melhor se separarem. Idéia totalmente infundada e apartada da realidade histórico-geográfica. É só pensar que, por exemplo, nenhum grande investimento estrangeiro está sediado em São Paulo só por causa da potencialidade daquele estado isoladamente, está lá, sim, por causa da potencialidade das 27 unidades da federação juntas. E para estarem lá, é preciso que se invista na infra-estrutura paulista. Acaso o Porto de Santos e o futuro trem-bala - feitos com dinheiro federal - não são exemplos disso?

Ainda analisando o mapa, como disse certa vez uma aluna minha - Tâmara - quando eu usava esse mapa em uma aula, é como se a Região Norte não fosse parte do Brasil. É simplesmente uma porção de terra virgem, rica em todo o tipo de recurso natural que se pode imaginar, esperando para ser desenvolvida. Se nós não fizermos, outros virão e farão e aí sim haverá separatismo no Brasil, mas esse forçado. Seremos na verdade é espoliados, roubados, saqueados.

Muito bem, para não me alongar mais, encerro dizendo que não há de se falar em viabilidade das idéias separatistas no Brasil. Somos todos um só, para bem e para o mal. É melhor nós, como nação, começarmos a gastar o nosso tempo e energia para pensar em formas de fazer esse gigante crescer, desenvolver-se e melhorar a qualidade de vida de toda a sua população de norte a sul, de leste a o este.

Outro dia vi o Primeiro Ministro Português, Manoel Josué Durão Barroso, abrindo uma cúpula de líderes europeus reunidos com o objetivo de proporem saídas conjuntas para a atual crise financeira mundial. No final da reunião ele se saiu com aquela que pra mim foi a frase do ano: "Ou nadamos juntos ou morreremos todos afogados". Bem, se os europeus que já fizeram dezenas de guerras entre si, são etnicamente diferentes, falam línguas diferentes e nutrem rivalidades históricas milenares, estão chegando a esse consenso, pq nós que falamos uma língua só e somos um povo só, também não chegamos?