quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O Ateneu, “crônica de saudades”

Por Luana Maia
Professora de Literatura
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Os principais vestibulares do país deixaram de abordar apenas questões gramaticais na prova de língua portuguesa e passaram a exigir, com um merecido destaque, questões interpretativas de obras literárias.
Em Mossoró, a universidade que dá ênfase à literatura, com tais tipos de questões em suas provas para o vestibular, é a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), que para o próximo concurso indicou cinco livros de grandes mestres literários, entre eles o nosso brilhante Antônio Francisco. Dos cinco livros exigidos, O Ateneu, de Raul Pompéia, é o único romance do século XIX e, por isso, o que encontra maior dificuldade de compreensão por alguns alunos que não possuem a intimidade com a linguagem desta época e a sensibilidade para desvendar as inúmeras metáforas presentes no romance. Neste sentido, abordarei algumas observações relevantes acerca do estilo do referido autor.
Raul Pompéia nos deixou sua grande obra O Ateneu, “crônica de saudades”. Primeiramente o aluno-leitor deve saber que uma crônica apresenta relatos do cotidiano e que as aspas indicam uma ironia, visto que, o narrador deste romance na verdade não sente saudades do seu passado, pois foi uma época na qual ele viveu infelizes momentos no Colégio Ateneu, onde presenciou cenas de hipocrisia, egoísmo, bajulações, homossexualismo entre outros. Costumo dizer em sala que Raul Pompéia reuniu em seu livro traços de Machado de Assis e Aluísio Azevedo, ou seja, uma mescla do estilo realista e naturalista. Neste romance ímpar da nossa literatura, Sérgio, narrador-personagem e alter-ego (outro eu) de Raul Pompéia, narra (na fase adulta) seus momentos de angústia quando aos 11 anos de idade foi estudar no Ateneu. Em sua narrativa, Sérgio denuncia toda a gama da baixeza que existia em uma escola de renome no Rio de Janeiro. A necessidade de não se envolver pelo homossexualismo, de se mostrar forte, de apresentar o diretor do colégio (Aristarco) como uma figura hipócrita e gananciosa, que bajulava os mais ricos e humilhava os mais fracos, mostra o traço realista de Raul Pompéia em criticar a sociedade carioca da época, pois o internato na verdade era o pequeno mundo que representava toda a sociedade burguesa do Rio de Janeiro, a mesma que também foi desnudada por Machado de Assis, aquele que mostrou que os fortes dominam os mais fracos. Além desse aspecto de denúncia que é feito em uma linguagem acadêmica, marcada pela correção e obediência aos padrões gramaticais (aconselho o uso do dicionário), Raul Pompéia por várias vezes compara os personagens a animais objetivando mostrar que o físico pode revelar traços do caráter das personagens. Nestes momentos de metáforas o leitor deve perceber que o autor utiliza o estilo naturalista, pois foi nesta escola literária que o zoomorfismo se fez presente no intuito de revelar que o ser humano é um animal movido pelos instintos, daí a presença tão forte do homossexualismo na obra. Os meninos tímidos são vistos como moças ao desamparo, contrariando todas as características românticas anteriores.
Os personagens são caracterizados de forma caricatural, com a intenção de deformar, como se Sérgio estivesse vingando-se do seu passado e de todos que faziam parte do Ateneu. Não se pode esquecer que D. Ema (esposa de Aristarco) é vista pelo personagem Sérgio de forma ambígua: mãe (anagrama de Ema) e ao mesmo tempo uma mulher por quem tinha uma paixão platônica.
No livro, não há propriamente um enredo, as cenas são apresentadas como recordações, de forma não linear.
Ao término do romance, o Colégio Ateneu é incendiado por um aluno (Américo). Segundo os críticos, foi a “vingança” do próprio Raul Pompéia na obra, visto que, este também estudou em um internato (Colégio Abílio) e por motivos ainda não bem explicados suicidou-se na noite de natal de 1895, saindo da vida e ironicamente entrando para imortalidade através de sua obra. O Ateneu é um verdadeiro mergulho na psicologia da alma infantil, ao mesmo tempo em que é uma crítica ao sistema educacional então vigente nos internatos.

6 comentários:

  1. Este blog está agora prestando um serviço aos vestibulandos. Nosso principal objetivo é promover discussões que sejam relevantes a todos e a literatura é um grande elemento fundador de uma sociedade. Neste sentido, aqui está o primeiro de muitos artigos que a Professora Luana irá escrever para o blog. Ela abordará pontos importantes acerca das obras que estão sendo cobradas na UERN e algumas da UFRN. Trata-se de uma profissional muito competente e perspicaz. O seu raciocínio é muito rápido e muito bem concatenado. Boa leitura a todos!

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  2. O mais importante não é apenas fazer o vetibular e passar ,mas apreender conhecimentos que levaremos conosco para sempre..

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  3. Perfeiiiito..Agora sim,eu tou pronta p apresentar meu seminário sobre a obra,O Ateneu.

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  4. e bem interessante esse livro!...

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  5. Esse livro é extremamente difícil de ler. Muitos detalhes e vírgulas que fazem rapidamente uma gigantesca confusão.

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