sábado, 8 de novembro de 2008

2010: Dobradinha Lula X Aécio?

Por Bruno Balbino
Professor de História

Desde a reeleição do presidente Luís Inácio Lula da Silva(2006) comentei na roda de algumas discussões entre amigos ou até mesmo em sala de aula que o grande desafio do PT seria o pós-Lula. Inclusive, adiantei-me as previsões de alguns colegas sobre a possibilidade de uma dobradinha Lula X Aécio. Alguns diziam: É cedo! Outros: que argumentos fundamentam essa idéia?
Primeiramente, é preciso entender que o grande vencedor de todo o processo político envolto da estada de Lula na presidência é ele próprio. A reeleição demonstrou que o PT e Lula são dois mundos separados, o primeiro ligado a um passado caracterizado pela luta, pelo labor, pela audácia dos discursos ferozes contra toda ordem do capital e todas as turbulências que a exploração capitalista trazia ao universo dos trabalhadores e do ‘povo’. O primeiro teve no presente a marca do seu declínio enquanto instituição vanguardista da ética política, os microfones com cabos de vários metros sujos no chão, os palanques acoplados de uma massa que não é uniforme e homogênea, caracterizavam o passado que foi a marca do instrumento da ideologização das massas, mas que agora estava engessado apenas no seu passado. Contudo, o PT conseguiu consolidar a sua razão de ser: a presidência da República. Foi o próprio partido que articulou, juntamente com o presidente, o corte umbilical para livrar Luís Inácio dos escândalos do mensalão e companhia limitada a fim de mantê-lo(Lula) nos ‘braços’ do povo. O plano foi um sucesso! Boa parte da nação pôde cuspir, rasgar até fazer chacota sobre a bandeira vermelha da estrela solitária, mas aplaudiu, arrepiou, chorou, gritou o Silva dos brasileiros. Se o PT fez de tudo para livrar ao máximo a figura intocável do presidente a recíproca- por mais que Lula tentasse- não foi verdadeira. Lula até agora não vem demonstrando ‘paqueras’ com nenhum possível herdeiro petista. Os nomes são muitos: Tarso Genro, Dilma Roussef entre outros. Contudo, a grande questão que se coloca é: Quem?
O PT viu ao longo do desenrolar dos escândalos políticos, envolvendo deputados, senadores, ministros e terceiros ligados ao partido dos trabalhadores, que a fome de governar sozinho deve ceder espaço para a ‘governabilidade’. Partilhar ministérios, estabelecer uma redistribuição dos principais cargos do Congresso era uma atitude que deveria ser tomada antes da podridão dos acontecimentos corruptos. Destarte, a fome, a ganância, o desespero gerou uma azia. Retomar o carro das propostas governamentais planejadas pelo governo era prioridade. Dá, chupa, derrama sangue, mela, manda, lava dinheiro. Resultado? Compra de partidos pequenos. Triste fim de uma saga calcada no apego à ética e os valores morais da política. Contudo, o PT já caminha para rearticular a desgraça de outrora: Dialogar com a base, isto é, o PMDB. Os diálogos são progressos. Talvez a resposta para isso seja o apoio futuro de Lula ao candidato que o PMDB lançará. Será uma dobradinha Aécio-Lula...?
Nessa semana o governador de Minas Gerais Aécio Neves(PSDB) recebeu o convite para uma conversa com o presidente do PMDB, Michel Temer (SP). Nessa conversa o peemedebista flertou em direção ao nome de Aécio Neves para presidente da República em 2010. Nesse sentido, o flerte do PMDB com o governador Mineiro abre um possível caminho para o processo da sucessão do presidente Lula do PT. Esse ínterim se dá pelo fato de que “o vampirinho brasileiro”, vulgo José Serra (ordem trocada, estratégia da narrativa) aprecia e agracia o seu nome para a candidatura tucana em 2010. Dentro do PSDB José Serra é mais cotado do que Aécio Neves, mas se o segundo visar à pleiteada a presidência... presumo um racha. Talvez essa primeira comunicação envolvendo líderes do PMDB com Aécio seja um início para uma invenção de um candidato pós-Lula, ou seja, Aécio.

10 comentários:

  1. Bruno foi meu aluno e hoje é um colega de trabalho. É muito competente e bastante articulado com as idéias. Temos muitas semelhanças ideológicas, ambos temos um viés de esquerda em nossos pensamentos políticos. Esse seu texto é bastante profundo e de muito valor para aqueles que se pretendem inteirados do que se passa em nosso país. De antemão, peço licença para opinar sobre o que ele escreve: Eu torço muito que essa aliança Aécio - Lula não se concretize. Pra mim é um atraso no sentido de que não respeita os partidos. O PMDB vira nessa história toda só uma legenda. Eu acho que os partidos devem buscar pessoas integrantes dos seus quadros para poderem propor candidaturas e não irem buscar nos quadros alheios. Se Aécio foi durante boa parte do tempo oposição ao governo Lula e ao PT, pq de um hora pra outra seria o apoiado dele? Esse tipo de política é o que nos atrasa.

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  2. Sempre mestre Raul

    Dei muito trabalho a Raul... Aprendi algo que se tornou marca em suas aulas: Geopolítica. Boa parte dos conhecimentos que tenho sobre o 11 de setembro, UE, ALCA, China foi Raul que me orientou. Sou muito grato a ele e sinto-me honrado por ter sido seu aluno

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  3. Com relação ao comentário do mestre Raul. Tentarei responder da seguinte forma "pq de um hora pra outra seria o apoiado dele". Segundo Eric Hobsbawm nós historiadores conseguimos lembrar aquilo os outros esquecem. Pensando nisso me veio uma outra frase lá do senso comum político... A política é "a arte de engolir sapos". Quem imaginaria que Serra iria apoiar para a prefeitura de São Paulo o candidato Kassab(DEM)ao invés do Picolé de Chuchu do PSDB? Perceber essa dobradinha na minha opinião é colocar o binóculo na posição inicial. Vejo essa dobradinha mais por uma falta de herdeiro no trono do que uma política de contradição. Vejo o PT mais maleável no sentido de dialogar melhor com as bases com os outros partidos dentro do próprio PMDB ( o partido mais partido do Brasil). Acho que a falta de um candidato Petista permite uma abertura maior para o PMDB daí eu me lançar na perspectiva de Lula-Aécio.

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  4. Bruno é o meu professor no qual é merecedor do meu apreço, sei que ele pesquisa sobre o cenário político Brasileiro com afinco e apresentou argumentos prístinos e verdadeiros sobre o PT e também sobre o presidente.Tenho bases esquerdistas e admiro a trajetória do partido dos trabalhadores e a De Lula ,não apinando antecipadamente mais tenho certeza de que o meu presidente não apoiará Aécio nas próximas eleiçoes ele não se arriscaria tanto não só por que ele já foi oposição mais sim porque ele não faz a cara do povo brasileiro não é digamos que "popular",foi comprovado o recuo do ´PSDB que foi de 91 municípios nessas ultimas eleições em contrapartida o PT está entre os partidos que mais cresceram nessas eleiçoes com 56% das prefeituras, foram seis capitas no primeiro turno,e é o que mais estava em disputas no segundo turno , nada menos que 15 dos maiores colégios eleitorais do país. O índice invejável de aprovação não é obra do acaso, apesar de lula que com poucas palavras levanta a massa em seu favor consegue eleger quem ele apoiar a presidência não faria tamanho rincho.

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  5. No que diz respeito a questão do que o prof. Raul comentou "Pra mim é um atraso no sentido de que não respeita os partidos" concordo e testemunho a favor do referido professor. Acho que aqui cabe uma discussão sobre a reforma política. Um dos pontos dessa reforma é justamente a questão da fidelidade partidária para acabar de vez com esses fisiologismos políticos. O troca troca do governo pega mal. Dificulta o bom andamento da democracia.

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  6. Com ctz! A democracia passa, antes, pelo fortalecimento dos partidos e não dos interesses pessoais. O que acontece hoje é que os partidos são siglas e pronto. É bastante diferente do que acontece na Europa.

    Ps. O propósito do blog tá se cumprindo aqui nesse post. Há, de fato, discussões bastante relevantes sendo travadas.

    Raul

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  7. Como leitor desse blog, não posso deixar de comentar o texto de Bruno Balbino, apesar de não conhecê-lo. Torço e acredito que essa ida do Aécio ao PMDB não dará certo, uma vez que Aécio tem a cara do PSDB, ele ainda é novo; 2010 não é o momento exato pra ser candidato a Presidência não! O PMDB, nacionalmente, é um partido que acolhe de tudo, é um partido que tem como filiado Jarbas Vasconcellos e Pedro Simom, até Renan Calheiros e Anthony Garotinho! O PT é um partido ambicioso, que fará de tudo pra se manter no poder, ou seja, acredito que esse partido tirará da Conchichina, se for preciso, um candidato de seu quadro.

    Victor Lima

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  8. Concordo com vc em partes, Victor. Primeiro, vc deve conhecer muito bem o que é um partido ambicioso, afinal vc é um demo, né isso? Esse sim faz de tudo para estar ligado às mamas do poder - isso é histórico. O PMDB é um partido amorfo, ou seja, sem formas. Se vc não quer maiores complicações ideológicas, filie-se o PMDB pq esse não é direita, não é esquerda, nem centro. É um partido partido, como disse Bruno em seu texto.
    Já o PSDB dificilmente irá abrir espaço para Aécio, pois o cacicão José Serra não abrirá espaço pra ele. Essa última eleição deixou muito claro que o Serra é dono do PSDB. O PT, por sua vez, terá muita, mas muita dificuldade mesmo, de apoiar um candidato que não saia de suas bases. Lembre-se que o PT é realmente um partido político,no sentido de que o candidato será escolhido não pq Lula ou alguém forte do partido quer, mas sim pq a maioria dos filiados assim desejam. O PT tem histórico nesse sentido. Lembra-se que Suplicy submeteu o seu nome a aprovação do partido nas penúltimas eleições presidenciais?
    Enfim, dificilmente uma aliança PT-PMDB-AÉCIO sairá, espero e torço.

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  9. Esse tópico é de extrema relevância para o cenário político, visto que tenta fomentar a discussão acerca da icógnita política sobre a qual nos debruçaremos daqui a 2 anos e, até então, nos parece mais tenebrosíssima. Acredito que a parceria posta pelo professor Bruno, o qual eu não conheço mas o saúdo, não irá se concretizar, haja vista a força política do presidente Lula. Luiz Inácio Lula da Silva com certeza irá fazer por onde alguém mais ligado a si mesmo se candidate pelo PT, irá se afastar da cadeira presidencial, mas tentará fazer por onde não afastar sua influência.

    Quanto a outro questionamento interessante: "Acho que aqui cabe uma discussão sobre a reforma política. Um dos pontos dessa reforma é justamente a questão da fidelidade partidária para acabar de vez com esses fisiologismos políticos. O troca troca do governo pega mal. Dificulta o bom andamento da democracia."

    Acontece, caros colegas, que a competência para legislar sobre partidos políticos e filiações partidárias é de competência da União. Para agravar a situação, o regime de coligação partidária vertical somente poderá ser alterado por meio de Emenda Constitucional, ou seja, o povo não poderá, nos moldes do ordenamento atual, influir nesse regime. Como os próprios políticos são os responsáveis por alterarem esse quadro e para eles essa situação é muito cômoda, acho dificil essa situação ser alterada.

    Abraços a todos.

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  10. Prezado Raul, a ambição maior do DEM é contribuir pra o bem do Brasil, contudo nada é perfeito. Ou o PT é um partido perfeito???
    Gostei da expressão: o PMDB é um partido partido!
    - Não voto em PT, contudo Eduardo Suplicy seria o único petista que eu votaria, mas esse, como Raul bem disse e todos sabem, é desvalorizado e queimado dentro do próprio PT, porque será???

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