segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O meu desgosto com o Brasil

Esse 07 de setembro deve marcar um momento de profunda reflexão sobre o nosso país e, no meu caso, de atestar o meu desgosto.
Sim, desgosto, essa é a palavra.
Passei os últimos anos acreditando que no Brasil não havia espaços para radicalismos, que o nosso povo prefere o diálogo ao reacionarismo, que o crescimento econômico dos últimos anos iria se prolongar por muitos outros, que continuaríamos um caminho de progresso independente do partido que estivesse no poder, mas estive retumbantemente enganado.
Por exemplo, 2015 marca a presença de uma xenofobia nunca antes observada. Não estou falando do recorrente e nojento preconceito contra nordestinos, mas nesse particular falo do racismo exercido contra haitianos. 
Nesse momento em que todos nos compadecemos com a morte do menino sírio em uma praia europeia, no Brasil, sobretudo no Centro-Sul, tem gente dizendo: "não venham pra cá", "imigrantes só trazem mazelas" e mais coisas do gênero.
Outro grande desgosto que tenho se refere à nossa institucionalidade.
Lendo sobre a nossa história do Séc. XX, vemos que de ano em ano tivemos golpes de Estado, todos com a ajuda ou com a participação direta das forças armadas e com apoio de uma certa classe média.
Foi assim em 30, 37 e 64, por exemplo.
Ingenuamente, pensei que isso estivesse superado, mas vejo, com o discurso do impeachment da Presidente Dilma, que não. A cultura do golpe está presente e parece que assim continuará por muitos anos. 
Explicando, faço minhas as palavras do Professor Joaquim Falcão, os impeachments, no mundo desenvolvido e no Brasil de 1992, ocorrem por que antes acontece um fato que gera uma crise política e daí o afastamento do Presidente. No Brasil de 2015, há uma crise política que procura um fato que justifique o afastamento.
Por isso, é golpe e desrespeito ao Estado Democrático de Direito.
Da mesma forma, outro capítulo à parte do meu desgosto é o que fazem com a nossa Constituição. Lá se vão mais de 90 emendas e nada de reformas tributária e política, algo que precisamos urgentemente.
Desgosto da corrupção, dos radicalismos, dos conservadorismos, da presença de homens como Eduardo Cunha e Renan Calheiros em postos tão elevados da nação, de um sistema político frágil e incapaz de gerar novas lideranças que nos levem a novos caminhos, de um povo majoritariamente iletrado. 
Somos um país atrasado, suscetível a instabilidades e a retrocessos.
Tenho desgosto e vergonha.

terça-feira, 31 de março de 2015

Por que sou favorável à redução da maioridade penal

Não, não é por que eu sou um ultraconservador de direita.
Também não, não é por que eu sou um xiita religioso do naipe de Silas Malafaia, por quem não guardo um pingo de simpatia, longe disso.
Como sempre digo, a minha orientação política é a de um liberal de esquerda ou um centro-esquerda moderado, malgrado eu reconheça as dificuldades conceituais que essas classificações trazem consigo.
A esquerda, como se sabe, no mais das vezes se posiciona ao lado do oprimido e tende a observar a delinquência muito mais como um fenômeno social do que como um ímpeto criminoso individual.
É por isso que a esquerda é contrária à redução da maioridade, por entender que os adolescentes devem ter um tratamento diferenciado na sociedade e por entender que a maioria dos delinquentes assim o fazem por não terem outras oportunidades. 
Isso é verdade mesmo. 
Não se pode tratar um adolescente criminoso da mesma forma que se trata um bandido profissional, assim como não se pode tratar um réu primário, qualquer que seja a idade, da mesma forma que se trata Fernandinho Beira Mar.
O direito penal já dá conta disso, digo, de tratar aqueles que praticam delitos na medida de sua culpabilidade, sempre levando em conta o seu histórico como indivíduo.
Eu sou favorável à redução da maioridade penal por que eu entendo que a regra do sistema penal é a imputabilidade, ou seja, os indivíduos são penalmente responsáveis, desde que tenham consciência da sua atitude criminosa.
Nesse sentido, no mundo de hoje, cheio de informações, acredito que a maioria das pessoas com 16 anos têm plena consciência de sua atitude e, por isso, devem ser responsabilizadas por elas.
No entanto, a pena para essas pessoas e a sua execução têm de ser diferenciadas.
Eu não quero me alongar muito, mas digo-lhes que, em tese, sou favorável à responsabilização penal com qualquer idade, desde que haja compreensão do indivíduo sobre a natureza dos seus atos.
Porém, defendo uma execução penal diferenciada para as pessoas abaixo de 18 anos que eventualmente cumpram delitos, com estruturas prisionais próprias e ênfase na reabilitação e forte conteúdo pedagógico quando do cumprimento da pena. 
O problema, no Brasil, é que Leis não pegam.
Para concluir, quero dizer que, apesar do meu posicionamento favorável em tese à redução da maioridade penal, no concreto eu a entendo inconstitucional. 
Não há contradição alguma nisso, nem isso é um manual de como se agradar a gregos e troianos: como cidadão eu sou favorável à redução em tese; como jurista, mesmo sendo-lhe favorável, eu a entendo inconstitucional por se tratar o art. 228 da Constituição Federal de uma garantia individual,  portanto cláusula pétrea que não pode ser diminuída por meio de emenda.
Por fim, não apresentei aqui todos os argumentos possíveis, nem esgotei o tema, claro.
Numa questão polêmica como essa, todos têm liberdade para se posicionarem conforme quiserem. Eu aqui apenas externei um pouco do que penso. 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Quando a despolitização é patológica

Por Fábio Amorim *

É recorrente, cíclico, com periodicidade de 4 em 4 anos, que os sentimentos de separatismo, de “sou elite intelectual”, de “a maior ditadura é aquela que aprisiona pela fome” e tantos outros, aflorem no Brasil... aliás, essas patologias, têm um período de início bem delimitado: remontam ao final de 2002, mas tem crescido em intensidade.
O fator de piora é a democracia, já que é só ela se fazer valer que os sintomas se manifestam. De ontem pra hoje eu tive que ler, ver e ouvir coisa do tipo: “É triste ver o Nordeste votar em Dilma por conta do Bolsa família” “Pernambuco me decepcionou, que vergonha, dar maioria pra essa corja de ladrões” “Dilma tirou mais votos no nordeste, porque aqui o povo se conforma com o recebimento de bolsa, não quer trabalhar” “Infelizmente tem muita gente alienada, mas não me arrependi da luta (‘classe médica aecista’ x dilma)” “Se os porcos pudessem votar, o homem com o balde de comida seria eleito sempre, não importa quantos porcos ele tenha abatido no recinto ao lado” “O PT dividiu o Brasil, o país está dividido sim, por cor, por conta bancária, por regionalismos, por ‘preferência sexual’” “Estou de luto pelo Brasil”
Sabe o que eu quero? DISTÂNCIA dessa gente de pensamento mesquinho. Da gente que acha mais cômodo e mais “politizado” disparar frases pré-prontas, pré-moldadas, carregadas de desinformação e de preconceito. De gente que viu nesse período eleitoral um momento oportuno pra mostrar a banda podre da face que, como não foi oportuno antes, não quisera mostrar. 
É a mesma gente que é contra o “coronelismo do PT”, embora não saiba nem o que é isso, nem tenha conhecido quem viveu nesse regime, mas que se “revoltou” porque o Estado de Pernambuco mostrou que não era curral eleitoral de Renata Campos e de seus Filhos. Porque é contra o voto de cabresto, mas apenas quando as “reses” não forem direcionadas para o curral que almejam que elas rumem. É a mesma gente que prega que o Nordeste foi quem elegeu Dilma, porque aqui se depende de bolsa família, mas talvez não saiba que o “estado mais rico da nação” possui o segundo maior número de beneficiários do programa, porque ser mais rico, por si só, é um título mais bonito, não importa quanto essa riqueza esteja concentrada. 
É o mesmo povo que nem se dá o trabalho de ir procurar o número de votos de Dilma no Norte-Nordeste (algo em torno de 24,6 milhões) e no Sul-Sudeste (algo em torno de 26,7 milhões de votos), e tudo isso está disponível no site do TSE, por exemplo. É a mesma gente que não se importa se Minas Gerais e Rio de Janeiro, dois importantes colégios eleitorais brasileiros, deram a vitória pra Dilma, e no RJ isso ocorreu com expressivos 54,94%, em Minas com 52,41%. É a gente que se acostumou com a lógica binária, com o maniqueísmo de bem e mal, e vê no mapa azul e vermelho que as agências de notícias apregoam, como uma forma didática de analisar o Brasil pós eleitoral. E é nessa lógica binária, que ora negam, ora reforçam, que costumam dizer que o PT dividiu o Brasil. 
Ora bolas, dividido esse país esteve desde a sua fundação, seja pelas capitanias hereditárias, seja pelos abismos sociais existentes. Seja no bairro nobre que convive lado a lado com os irmãos favelados, embora um torcicolo congênito o impeça de olhar pro lado. Seja nas nossas cidades, que o centro é delegado a alguns, as periferias e todo o seu ônus (extermínio da juventude negra, por exemplo) a MUITOS. Seja no nosso campo em que alguns detêm imensos latifúndios e a outros cabe ser rendeiros, não importa se a terra do patrão foi conseguida por meio de grilagem, da morte de comunidades quilombolas ou indígenas. 
As nossas divisões existem, estão aí gritando pra serem vistas, grifadas em marca-texto amarelo limão, mas os “politizados” viram a divisão só hoje, com grifos de vermelho PT. É a gente que ama filantropia, ama distribuir brinquedo, cesta básica, material de higiene pessoal em abrigos, em obras da igreja ou religião que segue, principalmente se puder e tiver como postar foto no facebook. Ama a filantropia, mas vê justiça social com desdém, como alimentar porcos, como política de pão e circo. É a gente que odeia corrupção, mas não importa se teve que fraudar um processo seletivo, se mostrar pobre de Jó, pra conseguir uma bolsa na universidade. Se teve que se valer das cotas para entrar numa universidade pública, mesmo verborreiando “meritocracia” por cada brecha de seus caninos afiados. É a gente que odeia o nordeste, que tem até a capacidade de soltar para um entregador de água que atrase na entrega um “além de nordestino você ainda é burro?”, mas que teve que vir pra essas terras áridas, de gente de coração quente, tentar sorte na vida. 
É a gente que respeita a democracia, mas acha alienado quem votou no partido que não apoiava, que acha que lutou muito, não importa se coagiu pacientes a votar em Aécio no meio de uma consulta, ou se, na condição de patrão, chantageou o empregado para seguir sua vontade política, mesmo sendo contra o voto de cabresto. É a gente que deslegitima todo movimento social, toda luta popular, mas que acha que é o ápice da movimentação política, que sua luta foi grande. 
É a mesma gente que se auto-intitula elite intelectual, porque é o vestibular quem dita quem é elite intelectual, ou não. Entrou num curso concorrido: Elite. Não entrou: recalcado, porque não é elite, vai ter que suar muito pra chegar no meu patamar de elite. 
E, de gente assim, eu só tenho uma coisa: PREGUIÇA.

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* Fábio Amorim é aluno do curso de medicina na Universidade Federal do Vale do São Francisco
 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Minhas rápidas impressões sobre "A carta de Aécio Neves aos médicos".

Abaixo reproduzo na íntegra a chamada "Carta de Aécio Neves aos médicos". 
É bom que todos leiamos para nos instruirmos para o debate e para a escolha do próximo dia 26/10/2014. 
Primeiro, se vocês observarem, a todo o momento, durante o primeiro turno, Aécio e Marina disseram que manteriam o "Mais Médicos". 
Na carta aos médicos, o que se vê é uma execração desse programa com as mesmas palavras ocas e falta de argumentação usada pelos médicos e estudantes de medicina, enfim, música para os ouvidos deles e, no mínimo, mentiroso e contraditório. 
 No mais, não comentarei mais a carta, deixarei para quem quiser lê-la e ter suas próprias opiniões, mas ressaltarei uma proposta: linha de financiamento do BNDES para a abertura de consultórios para os médicos recém formados. 
Isso é a cara do PSDB. 
O que essa proposta quer dizer? Bem, o governo vai captar recursos no exterior a 12,5% ao ano e emprestá-lo aos médicos recém formados a 4,5%. Eu e o restante da sociedade pobre e sofrida do Brasil subsidiaremos a diferença. Sim, nós pagaremos o empréstimo que o governo concederá a esses jovens profissionais recém formados.
No final o que ocorrerá? O médico recém formado montará o seu consultório com dinheiro público subsidiado e cobrará R$ 250,00 (duzentos e cinquenta reais) pela consulta.
Por certo, os médicos aecistas acham essa é uma ótima proposta para a melhora da saúde pública.
Coitados dos pobres brasileiros mais humildes, não poderão nem pisar na calçada do consultório pago por eles.  
Isso é elitista e é a cara do PSDB por que é um tipo de política que não olha o social, mas somente o econômico e, no caso concreto em análise, o eleitoral.

Aqui a íntegra da carta:
"Caro amigo, Todas as pesquisas de opinião revelam que o acesso a um sistema de saúde qualificado é a prioridade dos brasileiros. Tanto na saúde pública quanto na saúde complementar, o Brasil avançou muito desde a década de 90. Mas, com certeza, há muito a fazer. Assegurar os direitos de cidadania na saúde previstos na Constituição brasileira é tarefa complexa e trabalhosa. 
Exige liderança, experiência e clareza estratégica, e demanda capacidade de diálogo para a construção das parcerias necessárias, principalmente com os médicos brasileiros que são e serão protagonistas insubstituíveis na construção, no Brasil, do sistema de saúde dos nossos sonhos. Desafio como esse não comporta amadorismo, não demanda aventuras, requer liderança política e capacidade de gestão. Como presidente da República, irei aumentar os investimentos do Governo Federal, apoiando o projeto de lei de iniciativa popular endossado por entidades da sociedade civil que arrecadou mais de 3 milhões de assinaturas em defesa da aplicação de 10% da Receita Corrente Bruta da União exclusivamente para a saúde. Vamos profissionalizar a gestão do Ministério da Saúde, da ANS, da ANVISA e de todos os órgãos ligados ao sistema, qualificar a atenção primária e ampliar o acesso aos serviços ambulatoriais e hospitalares. 
O atual governo, na discussão e implantação do programa que ganhou o nome de MAIS MÉDICOS, atropelou o diálogo, mistificou a discussão, desrespeitou os profissionais brasileiros e tentou jogar a população brasileira contra nossos médicos. Ninguém pode ser contra mais médicos para atender a nossa população. Mas dizer, como o fez a candidata à reeleição, que o grande legado dos médicos cubanos será ensinar como se trata a população de forma humanizada é desrespeitar os médicos brasileiros, construindo no imaginário popular uma caricatura injusta. Ora, por que juízes e promotores vão para o interior e os médicos não? Porque não há carreira, retaguarda, segurança e parceria estratégica. 
Como presidente, vou viabilizar a Carreira Médica Nacional do SUS, assim como para os demais profissionais de saúde, e manter um diálogo permanente com as categorias, assegurar agências regulatórias regidas pela meritocracia e pela eficiência para garantir o bom convívio entre operadoras, prestadores e profissionais da saúde complementar. Também vamos criar um programa de financiamento pelo BNDES para que jovens profissionais de saúde tenham acesso a consultórios. O atual governo rompeu com os médicos brasileiros, expondo-os a uma tentativa de execração diante da opinião pública brasileira, como se bastasse importar médicos cubanos para encontrar as respostas que há 26 anos o SUS procura. Sabemos todos que isso é mentira e uma fuga da busca de soluções sólidas e duradouras. 
É preciso dar um basta nessa situação! O Brasil e o nosso sistema de saúde exigem mudanças profundas. Introduzimos avanços importantes em Minas e conheço os caminhos para a mudança necessária. Por isso, venho pedir o seu apoio, o de seus colegas de trabalho, familiares e pacientes. O atual governo faz mal à saúde. Vamos juntos, com diálogo e parceria, avançar na construção do sistema de saúde que os brasileiros desejam e merecem. 
Um abraço fraterno,"
Aécio Neves

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Primeiras impressões acerca da eleição presidencial de 2014

Inicialmente, de uma coisa estou gostando: a diferença entre os dois principais candidatos, Dilma e Aécio, é nítida. Nas últimas eleições presidenciais (2006 e 2010) os candidatos do PSDB, Alckmin e Serra principalmente, fizeram um esforço imenso de não se mostrarem, de não serem incisivos e de levarem a campanha inteira falando de aborto, de religião e de outras bobagens do gênero, enquanto o que de fato importava não era nem citado.
Todos sabemos, pelo histórico e pelos economistas que têm, que o PSDB é um partido que prega a diminuição do Estado na economia e isso não é uma coisa necessariamente ruim. Numa democracia é preciso ter contrapontos e nas últimas eleições tal não houve.
Esse ano, até agora, não tem sido assim.
Aécio Neves tem sido taxativo ao afirmar que na economia é preciso mais competitividade e isso para ele se alcança com menos intromissão estatal. Como exemplo do que isso significa, realço o caso do marco regulatório do pré-sal, por exemplo. É claro que se o PSDB vencer, vai ser modificado. Virá um regime de concessão - menos Estado - e o de partilha - mais Estado - será revogado. Na verdade, a grande diferença entre Dilma e Aécio é que este último, claramente, fala para o mercado. É tanto que qualquer notícia de subida de Aécio nas pesquisas o mercado fica animado.
Dilma, que claramente não fala para o mercado, tem sido muito acuada pela imensa onda de pessimismo que varre o país e, sinceramente, não creio que, dessa vez, ela pudesse ser o melhor nome para concorrer às eleições. Nem ela nem Lula. Para mim, o PT não tem hoje, à exceção do ex-Presidente, uma grande liderança capaz de ser a força política necessária para as mudanças que 2015 imporá ao país. Se os economistas estiverem certos - torço que não estejam - pode até vir uma recessão e isso é preocupante.
A minha maior curiosidade é sobre Eduardo Campos. No atual cenário de bipolarização PT x PSDB, há espaço para o surgimento de uma chamada "terceira via" e não sei se o ex-governador de Pernambuco tem cacife para isso. Só a campanha nos responderá.
Por fim, para não me estender muito, digo-lhes que hoje tenho uma tendência a votar em Dilma, mas inicio, como eleitor, a campanha de peito e mente abertos para eventualmente mudar de opinião, se for o caso. 
Aguardemos.
 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

As manifestações populares e o risco das análises apressadas

As manifestações populares que vêm ocorrendo no Brasil desde meados do ano passado são um tema palpitante e, posso lhes dizer, esse tem sido objeto de análise profunda no mundo das ciências humanas. Como se diz, é o "tema da moda", na Universidade, nas ruas e nas redes sociais. 
O problema ocorre quando cada um, isoladamente, tem uma opinião rápida, pouco aprofundada e a espalha pelas redes sociais, provocando um efeito dominó no qual todos saem repetindo a opinião geral, da massa, sem antes pensar e refletir um pouco. 
É o que está ocorrendo agora. 
Vejamos.
O último grande episódio em evidência na mídia, no que se refere às manifestações, é a morte do cinegrafista da Tv Bandeirantes e a prisão de seu assassino - culposo, penso eu -, um jovem que falou em aliciamento.
Isso mesmo. 
Tem-se dito que os jovens envolvidos nas confusões e nos conflitos relacionados às manifestações estão recebendo dinheiro para assim agir.
Bem, eu não vou entrar nesse mérito, se sim ou se não, por que isso quem vai fazer é a polícia, sobretudo o seu setor de inteligência - se houver.
Também não vou gastar tempo falando sobre o quanto isso é ruim para a democracia e sobre o quanto é nociva a atitude de quem alicia e de quem é aliciado.
O meu ponto é outro.
É que todo mundo - ou uma boa parte das pessoas - começou a jogar em descrédito todas as movimentações populares que sacudiram e vêm sacudindo o país desde o ano passado.
Vamos com calma. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. 
As movimentações populares são democráticas, legítimas e necessárias. Todo país precisa de um povo atuante que cobra dos políticos uma postura ética e que impõe à sociedade uma autorregulação capaz de melhorá-la e de levá-la a patamares, digamos, mais civilizados.
Em Mossoró quem faz isso é o movimento "pau de arara" e em Natal tudo começou com a "revolta do busão". 
Esse tipo de povo que se importa com o coletivo, que é crítico e que quer melhoras, se manifesta, cobra, exige, vai às ruas e faz o que mais for necessário para melhorar a sua condição, tudo sempre dentro da ordem constitucional vigente - a melhor de nossa história, aliás.
Mas, vejam, "povo" é muita gente. 
Os que vão fazer quebra-quebra e soltar rojões nos outros são bandidos e precisam ser presos e punidos. Eles não são a maioria e mesmo que fossem não desmereceriam a minoria que protesta pelo melhor do país.
Tenhamos cuidado ao sairmos por aí dizendo que nada presta, que todos os que protestam são vagabundos e coisas do tipo. Isso é de um conservadorismo atroz que beira a burrice. 
Compreendamos que a sociedade é complexa e que complexos são os seus movimentos. Há de tudo no todo, mas cabe a nós valorizarmos o que nos leva ao progresso e coibirmos o que nos faz regredir. 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Dilermando, Pau dos Ferros e as redes sociais

Meia hora gastei pensando no título dessa postagem, por que eu queria alguma coisa que pudesse dizer ao leitor que eu quero aqui fazer um paralelo entre o caso de Dilermando, aquele desembargador arrogante que destratou um garçom lá em Natal, de Dhiego Fernandes, um professor xenófobo preconceituoso que se referiu a Pau dos Ferros, uma cidade aqui do interior do RN, de forma infeliz e, sobretudo,  da reação que a sociedade potiguar - e brasileira - teve nos dois eventos.
Ambos os casos guardam similitudes, principalmente por que expressam a ação de um opressor sobre um oprimido. Com Dilermando isso é bem fácil de perceber: ele é desembargardor, "autoridade", poderoso, dono do mundo e o garçom, coitado, apenas alguém querendo ainda ascender à classe "C".
Já o caso de Dhiego é mais sutil. Ele não destratou ninguém diretamente, nem é uma autoridade. Aliás, segundo se diz, ele apenas expressou sua opinião xenofóbica e sem fundamento.


Comecemos dizendo que Dhiego é um forasteiro, vem de Natal, capital do estado, reforçando no ideário popular pauferrense a ideia de que se trata de um "opressor metropolitano". Temos aí uma memória popular que remonta a colonização. 
Na série de famigeradas postagens, ele se disse, nas entrelinhas, como superior e, não só pelo fato de ter chamado Pau dos Ferros de "cabaré", sempre se pôs como uma espécie de versão moderna de Carlota Joaquina - aquela que chamou o Brasil de quinto dos infernos e bateu os pés para daqui não levar nem areia, quando foi-se embora de volta para Portugal. Isso ficou bem evidente com o uso do termo "nativos", que não tem, para as ciências humanas, qualquer sentido pejorativo, mas no contexto do que falou esse Professor, caiu muito mal.
O fato é que a opinião que ele tem de Pau dos Ferros é totalmente caricata e descontextualizada, típica de xenofóbicos ignorantes. A cidade sofre com o abastecimento de água, é verdade, mas isso não é uma realidade pauferrense. Ao contrário, é mundial. Inclusive, Natal, nossa capital e cidade de Dhiego, enfrenta problemas seríssimos e, se não bebe "lama", bebe água poluída com nitrato oriundo das fossas não saneadas, que são muitas. Há, inclusive, projetos de se construir uma adutora da barragem Armando Ribeiro Gonçalves para Natal, da mesma forma como há uma adutora da barragem de Santa Cruz para Pau dos Ferros. Tudo é no sentido de se resolver a questão do manejo dos recursos hídricos, algo muito sério e o qual faz até mesmo cidades como Londres, Nova Iorque e Tóquio sofrerem. 
Engraçado, também, é que ele fala que os pauferrenses votam no Democratas - o que não é nada demais, senão o exercício de um direito -, mas o maior líder nacional desse partido é José Agripino, com maciço apoio dos eleitores natalenses, sua base eleitoral. Isso sem falar de seu filho, Felipe Maia, herdeiro da oligarquia, deputado federal, que também é sempre reeleito pelos eleitores de Natal, que também elegeram Micarla e adoram Wilma de Faria, Carlos Eduardo e gente com nome terminado em "Alves", assim como os mossoroenses adoram Fafá, Rosalba e afins. Não saber votar não é só um mal de Pau dos Ferros, mas do Brasil, infelizmente. Basta nos lembrarmos que o estado mais rico, São Paulo, elegeu como seu deputado federal o palhaço Tiririca.
 Mas, enfim, o que mais me encantou foi a reação popular nos dois casos. Tanto no de Dilermando, quando o um cidadão não aceitou a situação e partiu em defesa do garçom oprimido, como no de Dhiego, quando os pauferrenses reafirmaram seu sentimento de localidade e não aceitaram a humilhação que o forasteiro tentou lhes impor. 
A sociedade potiguar vivenciou dois momentos nos quais pôde demonstrar ao restante da sociedade brasileira que não é se calando frente às injustiças que nós vamos progredir como país. Temos mesmo é de nos indignarmos, de nos revoltarmos e de coibirmos esse tipo de atitude que nos envergonha. 
Por fim, se pudesse, diria a Dhiego para não achar ruim se um dia, na Europa ou em outro lugar, sofrer xenofobia. Afinal, ele é um brasileiro que quando vai ao exterior sofre xenofobia; é um nordestino que quando vai ao centro-sul sofre xenofobia; é um potiguar que exerce xenofobia. Situação ilógica? Não, burra mesmo.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

De repente, Mandela é pop...

... e isso é muito bom! 


Uma personalidade como essa jamais poderia ter o acontecimento de sua morte passado em branco. É mesmo normal que a mídia dê muita ênfase a esse fato, como é normal que pessoas dos mais variados espectros ideológicos tentem construir todo o tipo de discursos sobre Mandela, quase todos se apossando de sua história e subvertendo-a em seu favor.  
O que gostam de análises mais profundas precisam ter cuidado ao se debruçar sobre essas versões que datam agora de dezembro de 2013. 
Umas o endeusam, o tornam uma criatura imaculada, pura, uma imagem quase religiosa. Isso é tudo o que Mandela jamais foi, assim como também não foi um comunista radical de esquerda.
Aliás, no momento mais crucial de sua vida, após a saída do cárcere, já na presidência, ele foi conservador e muito, pois não rompeu com os antigos dominadores, mas procurou compor alianças com eles. Bem, isso não é o melhor exemplo do que é ser de esquerda, mas foi exatamente essa a sua grande jogada de mestre. 
Ora, Mandela tinha a exata noção de que, naquele momento, nos anos 90, precisava construir um sentimento de nacionalidade uno e sólido em toda a África do Sul. Uma nova Constituição precisava ser promulgada e nova Instituições estavam nascendo. Se Mandela agisse diferente, se tivesse sido beligerante, se não tivesse sido conservador, tudo iria por água abaixo e o país poderia novamente mergulhar numa ditadura - negra ou branca. 
Para evitar isso, era preciso fazer com brancos e negros se juntassem para construir um país. 
Isso não se faz com rupturas traumáticas, mas com calma e inteligência.  Por isso, o empenho de Mandela de fazer com que a população negra abraçasse a seleção de rugby e torcesse por ela como nós torcemos pela nossa seleção de futebol. Ele estava, ali, querendo criar um símbolo no ideário das pessoas, um símbolo incolor, nacional.
Num determinado momento de sua vida, nosso personagem histórico enveredou pela luta armada, é verdade. Porém, eu lhe digo, nada mais legítimo naquele momento.
Os homens são frutos de seu tempo e de sua realidade histórica. 
O apartheid foi, seguramente, junto com o Nazismo - de quem é cria - o momento histórico mais tenebroso do século XX. Todas as experiências humanas nesse sentido são desastrosas, feias, nos enchem, como humanos, de vergonha. A ideia de raça superior só serve para incitar o ódio e criar feridas profundas na história de um povo. É só vermos o caso da Alemanha, dos Bálcãs, da Palestina e da própria África do Sul, por exemplo. Em última análise, além de descabida, tal concepção xenofóbica é burra, como já por diversas vezes disse nesse blog. 
Não existem raças, mas apenas etnias que nada mais são que adaptações físicas a um meio externo. Não são um motivo de superioridade ou de inferioridade. 
Mandela sabia disso e foi um ícone. Com parcimônia, carisma, inteligência e boa dose de conservadorismo, ele conseguiu construir um país.
 

domingo, 24 de novembro de 2013

Bom livro que indico: "O Castelo de Papel", de Mary Del Priore.

Eu tenho muita curiosidade pelo período em que o Brasil foi uma monarquia, acho muito interessante um regime como esse ter saído da Europa e se instalado por aqui por tanto tempo e de forma tão estável, afinal, até hoje, a Constituição de 1824 foi a que mais durou.
Esse livro conta um pouco da parte final do Império, sob a ótica do casal que, em caso de morte de Pedro II e de não destituição da monarquia, iria herdar o trono do Brasil.
É incrível como a Princesa Isabel e o seu marido, Conde D'Eu, eram, na época, fortemente criticados pela Imprensa que, num dos raros momentos de nossa história, era completamente livre.
Saio da leitura desse livro com outra impressão sobre a personalidade de Isabel e sobre os momentos finais do Império.



A Autora, Mary Del Priore, escreve de forma fácil e insere, no meio da vida do casal protagonista, toda a realidade política e econômica da época, não só no Brasil, como na Europa.
É uma leitura muito agradável. 
Vale a penar ler. Indico.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A espionagem americana e a vida real

Apesar de o governo brasileiro ter feito muito esforço de mostrar indignação frente aos fatos recentemente revelados pela imprensa, segundo os quais o governo americano espiona Dilma e a Petrobras, na verdade, acredito que seja óbvio que o Estado brasileiro sempre tenha sabido disso ou, pelo menos, tenha suposto.
Ora, não é claro imaginar que os EUA, líderes mundiais em tecnologia da informação, a nação mais militarizada no mundo, centro de poder geopolítico mundial, opera espionagem nos principais países do mundo?
Nem os seus aliados escapam.
Isso é o óbvio a imaginar, a não ser que nós nos achemos tão pequenos ao ponto de acreditar que nenhum país do mundo tem interesse no Brasil. 
Impossível. 
Quer queiramos ou não, somos uma economia pujante e importante, além de rica em petróleo, lembremos.
O fato é que nós não temos - como quase ninguém tem - força para retaliar militarmente os EUA e, mesmo que tivéssemos, talvez não fosse interessante. 
Também não é interessante economicamente retaliar os EUA do ponto de vista comercial. Eles são os maiores investidores no Brasil e nosso segundo maior parceiro comercial, só perdendo para a China. Num momento em que lutamos para reaquecer a economia, isso seria um tiro no pé e faria mal a nós próprios.
Cortar relações diplomáticas, impossível. Os EUA são importantes e influentes demais no jogo geopolítico para que façamos isso.
Talvez, no máximo, enviar o atual embaixador americano de volta aos EUA, dizer ao país que não aceitamos mais esse embaixador e que, por isso, eles devem providenciar um outro.
Outra medida de - relativo - impacto seria o cancelamento da visita da Presidente Dilma.
Por fim, nos restaria denunciar o caso aos organismos internacionais, o que não dará em nada.
Tudo isso é só jogo de cena.
Agora, o que de fato fará a diferença é nós começarmos a investir, pesadamente, em tecnologias de informação e em mecanismos de contraespionagem. 
Isso sim faz diferença e nos torna menos dependentes e suscetíveis aos EUA.
Investir em tecnologias de satélites nacionais, redes virtuais nacionais e mecanismos de segurança nacionais.
Na vida real, isso não se faz com jogos diplomáticos, mas com investimento, planejamento e - para variar - educação.